A última linha de bondes de São Paulo

O que teve início em 25 de abril de 1880 terminou na noite de 27 de março de 1968. Naquela longínqua ocasião, a Lei-Provincial nº. 1.212 autorizava o visionário engenheiro Alberto Kulhmann e seu sócio, Euzébio Inocêncio Vaz Lobo da Câmara Leal, a construírem uma ferrovia ligando São Paulo a Santo Amaro, com carros movidos a tração animal. Criaram a CCFSPSA – Companhia Carris de Ferro de São Paulo a Santo Amaro. Desafio difícil e problemático, logo deixando Kulhmann sozinho na gigantesca empreitada. De carros puxados por burros a trens movidos a vapor, passaram-se cinco anos, eis que o projeto primitivo não saíra do papel.
Inaugurada em 14 de março de 1886, com 18 quilômetros de extensão, da Rua São Joaquim à entrada de Santo Amaro, às duras penas, a linha funcionou até 1900, quando a empresa de Kulhmann foi à falência. Foi a The São Paulo Tramway Light & Power Company que a arrematou em leilão público, mantendo a linha a vapor até 1913 e, daí em diante, operando com os bondes elétricos. A região toda sentiu o impacto e cresceu, despertando a curiosidade e o interesse financeiro de grandes investidores imobiliários.
Em 1947, a recém-estatal CMTC emcampou todas as linhas de bondes e ônibus urbanos da capital e, aos poucos, foi extinguindo as linhas de bondes, imposição natural da indústria automobilística que se instalava no País. Com isso, em São Paulo e nos grandes centros, os trilhos começavam a ser encobertos por ruas a avenidas asfaltadas. O prenúncio, irreversível, chegou, finalmente, à antiga linha que ligava o Centro a Santo Amaro. E foi na noite de 27 de março de 1968 que os bondes que percorriam o mesmo trajeto, por mais de 55 anos, fizeram a sua derradeira viagem. Chamada "A viagem do adeus", reunia doze carros, tendo à frente o bonde-camarão nº. 1.543, conduzindo o prefeito Faria Lima, o governador Abreu Sodré, a Banda de Música de Santo Amaro e um punhado de personalidades do mundo social, político e religioso paulistano. Nas laterais do bonde-símbolo, via-se uma faixa de pano com os dizeres: “nasce a Nova São Paulo”. Do lado de fora, às margens dos trilhos, a viagem foi presenciada e cercada de extremo carinho e profunda emoção por milhares de pessoas. Com os olhos marejados, antigos moradores testemunhavam o epílogo de uma época romântica, tranqüila e feliz, com a certeza de que um pedaço da cidade de São Paulo nunca mais voltaria aos velhos tempos.
E enquanto o longo comboio passava, até sumir para sempre no horizonte, um rosário de saudosas recordações mexia com a memória de cada um. Para outros, no entanto, mergulhados em problemas do mundo moderno, não havia como alcançar o significado daquela viagem e, tampouco, imaginar que, naquele exato momento, terminava um ciclo de transcendental importância da história de toda a região, desde o primeiro "trem", ligando São Paulo a Santo Amaro, 82 anos antes.

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