No início dos anos 1960, surgiram notícias de que havia um movimento para a retirada das imagens de santos da Igreja Católica. Só deveria ficar o altar e quando muito uma cruz de madeira, sem imagem. A proposta lembrava a das Igrejas Protestantes. Havia muito disse-que-disse em torno do fato e muita gente achava um absurdo tirar as imagens. Comentando o fato com uma amiga ela me disse que havia em São Paulo uma igreja muito bonita, que não tinha estátuas de santos, mas tinha uma pintura muito bonita no altar. Chamava-se Igreja da Paz e ficava na várzea do Glicério. Assim, num belo domingo, fomos para lá porque me deu vontade de conhecê-la.
Realmente era algo diferente e muito, mas muito bonito mesmo. Na parede atrás do altar havia um afresco de uns cinco ou seis metros de comprimento e tomava quase toda a altura da parede da igreja. Seu fundo tinha diferentes tons de cinza, o que dava um efeito belíssimo e representava o Cristo crucificado. Existiam afrescos em outras paredes também.
A igreja era construída em tijolos alaranjados em tom claro. Havia ainda uma torre muito alta, construída em separado da construção principal, com nove pequenas janelas de cada lado do corpo lembrando algumas chaminés das que se vê nas antigas fábricas e olarias.
Em verdade, a Igreja não era desprovida de estátuas de santos, como minha amiga havia dito, havia esculturas sim e que se combinavam e se integravam aos afrescos. As esculturas, em mármore, foram feitas pelo artista italiano Galileo Emendabili – o mesmo que fez o Monumento aos Heróis Constitucionalistas de 1932, no Ibirapuera. Os afrescos foram feitos por Fulvio Pennacchi, consagrado artista ítalo-brasileiro. O arquiteto foi Leopoldo Pettini.
A Igreja Nossa Senhora da Paz teve início em meados de 1930 – compra de terreno etc. – pelos esforços do padre Melini, que desejava ter uma igreja que servisse de referência aos imigrantes italianos. Queria construir um projeto social – escola, creche, ginásio, encontros e festas.
Segundo informações que encontrei na Revista Dante Cultural, Ano III, nº 7, de novembro de 2007, apenas o ginásio não foi construído e "desde a década de (19)70 dedica boa parte de seus esforços no atendimento a imigrantes latinos e a migrantes brasileiros, como o Centro Pastoral do Migrante, o Centro de Estudos Migratórios e a Casa do Migrante. As três instituições dão moradia, atendimento jurídico, psicológico, trabalho e até comida para quem chega a São Paulo, além de disponibilizar uma biblioteca sobre o tema. A influência Latina fez com que os confessionários fossem substituídos por imagens das padroeiras da Bolívia, Chile, Paraguai e Peru. E no último domingo de cada mês são realizadas missas em espanhol".
A presença de grandes famílias italianas foi fundamental para a realização do Projeto. Padre Melini se uniu às senhoras das famílias Crespi e Matarazzo e fundou a Associação Nossa Senhora da Paz, que promovia eventos e arrecadava contribuições da comunidade italiana. Ainda hoje, em todo primeiro domingo do mês, a missa é rezada em italiano: "Prendete – é a voz do padre chamando a atenção dos fiéis para o que vem a seguir – Padre Nostro che sei nei cieli, sai santificato il tuo nome. Venga il tuo regno…".
A presença italiana continua sendo sentida na igreja, apesar de todas as modificações que o tempo trouxe.
A Revista Dante Cultural diz que "Durante um longo período, a Nossa Senhora da Paz foi não só referência para os imigrantes italianos, como também para os adeptos da arte. Em 1950, foi a única igreja de São Paulo escolhida para participar da Exposição Internacional de Arte Sacra do Ano Santo, em Roma. E viveu o auge oito anos depois, quando o então presidente italiano Giovani Gronchi a visitou e participou de uma celebração com quase mil pessoas".
Quando a conheci, em 1962, a igreja estava ainda saindo de uma grande crise que quase a fechou e diziam que o motivo era pela comunidade italiana ter se dispersado – as mulheres já não atuavam como antes e etc. Felizmente para nós paulistanos, ela conseguiu sair da crise e recuperar-se. Já imaginaram perder-se uma maravilha destas?
Hoje, a região do Glicério e a Rua do Glicério deixaram de ser reduto da classe média e a construção de viadutos e grandes avenidas trouxeram consigo a mendicância, a população moradora das ruas, os catadores que dormem sob as marquises, as prostitutas, os travestis e, pior do que tudo, o tráfico e consumo de drogas.
Contudo, lá está ela, bela e impávida, resistindo bravamente a pichações, poeira, inclusive à fuligem negra dos carros, ônibus e caminhões, como mais um dos muitos monumentos de beleza desta São Paulo, que ainda não aprendeu a cuidar e admirar o que tem.
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