Embora atualmente resida no Jardim Paulista, nasci e cresci no bairro do Brooklin, onde morei até os 33 anos de idade. Do pré-primário à oitava série, em 1985, estudei no Colégio Meninópolis, localizado na Avenida Morumbi, próximo da Avenida Santo Amaro, administrado, na época, pelos padres italianos da ordem PIME e cujo diretor era o severíssimo padre Theodoro Negri. Um dos últimos colégios só de homens na época, era católico e rígido, não obstante fosse quase impossível conter aquela manada ensandecida de adolescentes e jovens que, quando chegavam aos 13 e 14 anos, ao final das aulas corriam imediatamente em direção aos portões do Colégio Beatíssima, uma quadra dali, em que só mulheres estudavam. Havia também uma pequena rua ao lado do colégio, popularmente chamada de "vilinha", onde os alunos marcavam para resolver, fisicamente, os desentendimentos havidos no decorrer das aulas. Quando algum combate iria ocorrer, a informação corria de forma tão desenfreada que antes de os desafetos chegarem à "vilinha", já havia quase uma centena de espectadores no aguardo. Só faltavam cambistas para vender as entradas. O dono da Cantina do colégio se chamava Bonini, e tinha que gradear as laterais da lanchonete por causa dos sacos d´água que os alunos jogavam. Em frente à portaria do colégio, existia a famosa "Adega do Darlindo", um português gente boa que era xingado injusta e diariamente pelos janelões da escola e em cuja loja a molecada arremessava borrachas e canetas quebradas. Me lembro que um dia, enquanto xingávamos o Darlindo pelos janelões, um amigo meu tomou um tiro, na mão esquerda, de espingarda de chumbinho. Deve ter vindo da adega. Enfim, sempre achei que a falta de mulheres no colégio maximizava o vandalismo masculino.
Findo o ginasial aos 14 anos, implorei para meus pais para mudar para um colégio misto. Dos 6 aos 14 anos no Meninópolis, parecia que havia servido 8 anos de exército. Foi quando eles me transferiram para o Colégio Pequenópolis, na Rua Michigan, no Brooklin Novo, um colégio laico, misto e liberal, administrado pela família Camargo, em que os estudantes tinham voz ativa, a ponto de terem poderes para, juntos, lograrem demitir um professor da escola. Linha absolutamente oposta à do Meninópolis, em que, se um aluno criticasse um professor ao orientador, provavelmente seria suspenso ou convidado a se retirar. Tendências pedagógicas diametralmente opostas, e ambas, a meu ver, equivocadas. Me enturmei de imediato no Pequenópolis, cujos estudantes, em sua maioria, eram residentes do Brooklin. Era um típico colégio de bairro. O ótimo foi que tinha 15 anos de idade e fiz uma enorme turma de amigos, todos praticamente vizinhos. Saía a pé de casa e ia passando na casa de um por um, tocava a campainha, entrava a qualquer hora do dia, passeávamos com os cachorros, íamos ao Açaí Clube, lutávamos Tae Kwon Do ali pertinho, na Academia do Paulo de Tarso, enfim, era uma vida típica do interior, mas em plena Capital. Saíamos à noite, sextas e sábados, a pé, pois nossas festas e aniversários ocorriam, em regra, todas na vizinhança. Lembro-me de que era uma turma de 40 ou 50 pessoas mesmo. Não seria justo que nomeasse as pessoas, sob pena de cometer o pecado de me olvidar de alguém. Mas quem viveu isto comigo, sabe bem do que estou falando. E assim curti o final de minha adolescência, até que entrei na faculdade e cada um tomou um rumo diferente.
Tanto o Colégio Meninópolis quanto o Pequenópolis, duas tradicionais e famosas instituições brooklinenses, infelizmente cerraram suas portas. Hoje, trago pouquíssimos amigos daquela época, mas sempre que encontro alguém desta turma por aí, a nítida impressão, após poucos minutos de conversa, é que, na essência, todos somos os mesmos e que tudo parece que ocorreu ontem, mas em um tempo em que a vida era puro e leve entretenimento.
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