As camisas do meu pai

Minha mãe sofria e a gente se divertia, vendo ela passar as camisas do meu pai. Tinha que primeiro alvejar, com pedra de anil. Anil em pedra. Não confundir com o aniz, aquela pedra incrustada em um galho, que vinha dentro de uma garrafa com um líquido claro, translúcido, transparente, licoroso e gostoso.
A gente gostava de tomar aniz, mas minha mãe detestava ter que passar as camisas do meu pai, alvejadas primeiro e depois engomadas. É isso mesmo, tinha uma goma pra deixar o colarinho e os punhos duros. E no colarinho ia uma tal de barbatana, pra ajudar na rigidez. E no punho sempre uma bela abotoadura. Não usavam botão no punho das camisas. Pelo menos nas camisas de gente fina. E meu pai, apesar de durão com a gente, às vezes era gente fina!
Mas depois surgiram umas camisas que se propunham a ser da modernidade, a acabar com todo esse ritual torturante para a zelosa dona de casa. Eram as tais das “Volta ao Mundo”. Só se for ao mundo brega.
Era uma proposta inovadora. As “Volta ao Mundo”, confeccionadas no mais puro poliéster, poli o que?… Poliéster, era a carta de alforria da dona de casa. Chega de goma. Chega de ferro de passar. Lembro bem de uma “Volta ao Mundo” branca que minha mãe comprou pro meu pai. Meu pai ficou parecido com um saco de leite fora da geladeira: aquele branco brilhante, todo transpirado.
Mas não vingou não! As tais camisas eram muito ruins. Deixavam o cidadão, seu usuário, transpirar feito forneiro de siderúrgica. Retinham o suor todo do corpo. E aquilo fermentava que virava um mal cheiro, que nem bicarbonato de sódio resolvia.
Pois é, acabei lembrando do bicarbonato de sódio, que só conheci para uso alimentício, inda bem. Mas me disseram que essa substância foi o precursor do desodorante. Ainda não havia Rexona, nem Axé, bastão, os primeiros, depois spray e roll on, pra resolver o problema do mal-cheiro decorrente do odor.
Mas talvez isso nem fosse tão problemático. Naqueles tempos, o transporte coletivo não era tão cheio assim. As pessoas não iam apinhadas como sardinha em lata. E pelo que meu pai me contou, tinha ainda os bondes abertos. Ventilavam bem.
Bem, mas isso tudo é coisa do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. E muitas coisas mudaram pra melhor, mas outras não, a camisa, por exemplo. É sempre bom ver uma camisa de puro algodão, de tricoline (um nome mais abestado pra coisa), branquinha, com Omo ou com Tixan (viva a Unilever, que um dia foi Gessy), passada no ferro automático Black & Decker, a vapor com várias regulagens de temperatura, de acordo com o tecido. Essas ainda são muito mais camisas que as de microfibra, uma nova roupagem do tal secundário poliéster, que não é mais “Volta ao Mundo”, mas é da Fascynios, vendidas no Shop Tour – compre uma e com mais cinco reais leve a segunda, se for na loja no domingo – que não causa fascínio nenhum ao apreciadores das boas coisas.

e-mail do autor: [email protected]