Era uma segunda-feira nublada, estava iniciando o meu plantão no corpo de bombeiros, mais precisamente, como médico do resgate. Por volta de nove horas da manhã tocou o alarme, fomos acionados para um atropelamento por moto. No caminho, via rádio, já fui informado que tínhamos três vítimas: o atropelante, que era um motociclista, e duas mulheres. Quando chegamos ao local os colegas dos bombeiros que vão de moto e sempre chegam primeiro estavam dando os primeiros atendimentos. Fazendo uma rápida avaliação da cena e com alguma experiência, percebi que se tratava de um acidente grave. Uma senhora de origem oriental, 70 anos, estava em parada cardio-respiratória. Neste momento começamos a fazer o atendimento avançado com monitor cardíaco, com todas as drogas necessárias, como adrenalina, atropina e compressões torácicas. Quando estávamos com uns vinte minutos de reanimação, aparece uma moça toda de branco, também oriental, andando em nossa direção, e quando chega perto, grita: minha mãe! Minha mãe! Os policias tentaram impedir que ela chegasse mais perto, mas eu por um instante me aproximei dela e disse: tudo bem! Calma! Pode ficar perto da sua mãe, mas deixa nós trabalharmos. A moça oriental ficou segurando a mão da mãe, chegou até beijar a mão. Infelizmente, após quarenta minutos sem sucesso, fui obrigado a parar o procedimento e constatar óbito. Mesmo sem saber qual seria a reação da filha, tinha que falar que nós tentamos tudo, mas sua mãe havia falecido. E falei! A moça ficou quieta me olhando, olhando para mãe e me disse. Eu acho que não é minha mãe! Eu rebati: mas você não reconhece sua mãe? Ela falou: ela está meio diferente. Será pelo trauma? Eu perguntei: como é o nome da sua mãe? Mitsuo. Eu chamei o policial e perguntei: você está com o documento da senhora que foi a óbito? Ele respondeu: sim! Eu disse: qual o nome dela? Ao que me respondeu: senhora Sadao. Não era a mãe dela. Ela meio assustada, meio envergonhada, disse: minha mãe mora aqui em frente. Então eu falei: vá até ela e lhe dê um grande abraço e um beijo, porque ela está viva.
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