Cheguei em casa depois do trabalho e fui logo falando para minha esposa.
– Marisa, você ganhou um passeio num navio como presente de aniversário. Ela não entendeu nada e fez cara de interrogação.
– Como assim? Um passeio num navio? Só se for no Rio Sena.
– Não é exatamente no Rio Sena, mas tenho certeza que você vai gostar. Respirei fundo e disparei:
– Nós vamos navegar no Rio Tietê.
Ela arregalou os olhos e falou:
– Você só pode estar louco. Imagina que eu vou entrar num barco para navegar no meio da sujeira! – Disse ela, querendo encerrar o assunto.
Mas persisti e expliquei do que se tratava. O Instituto Navega São Paulo, em parceria com o Banco Itaú e a Secretaria Municipal de Educação, criou um projeto que visa conscientizar os cidadãos da importância de tornar o Tietê navegável e que em breve ele pode se transformar num meio de transporte tanto de cargas quanto de passageiros. Outro objetivo é educar as futuras gerações de que o rio pode voltar a ter a beleza de outrora, quando recebia diversas competições de natação. É triste imaginar que até os anos 1940 o Rio Tietê não era poluído e que suas águas eram o habitat de várias espécies de peixes. Infelizmente, com o tempo e o crescimento desenfreado da cidade, o Tietê se transformou num depósito de lixo e esgoto a céu aberto. Nos últimos anos, preocupados com as freqüentes enchentes, os governos estadual e municipal de São Paulo fizeram uma verdadeira recuperação do rio. Seu leito, ou calha, como preferem os especialistas, era totalmente irregular e com as chuvas transbordava facilmente, inundando as marginais. Os trabalhos realizados foram de uma precisão extraordinária, hoje a calha tem uma profundidade de 3 metros, mas que permitiu que nosso passeio fosse realizado com segurança.
Como se sabe, o rio serve de lixeira. Muitas pessoas não se preocupam com o que pode acarretar o acúmulo de material orgânico ou inorgânico em suas águas. Para se ter uma idéia, dois dias antes do nosso passeio, realizado no último domingo, tinha chovido muito e isso fez com que centenas de garrafas pet se acumulassem na margem próxima à ponte Júlio de Mesquita Neto, nosso ponto de partida.
Falando nisso, um dos destaques do projeto eram as gigantescas garrafas pet expostas nas margens do rio. Criadas pelo artista plástico Eduardo Srur e feitas de vinil. As mais de vinte garrafas, segundo me informaram, depois de finda a exposição serão recicladas e transformadas em diversos produtos, como cobertores e vassouras. Aliás, foram distribuídos aos passageiros livretos explicativos falando da importância de reciclar as garrafas pet. Com duas é possível fazer uma camiseta, com quatro se confecciona uma calça. Fomos muito bem atendidos, a tripulação do nosso navio, “Almirante do Lago”, nos deu muitas explicações e o presidente do Instituto Navega São Paulo, João Norishi, fez uma palestra falando das parcerias, eventos culturais e projetos que ainda serão realizados. Foi incrível. O percurso durou pouco mais de uma hora e eu, minha esposa e nossa filha Letícia nos divertimos bastante, além de tirarmos muitas fotos. Que passeio inesquecível. Assim que for possível vou repetir a experiência, afinal de contas, navegar no Tietê é preciso.
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