Lembranças dos meus tempos no bairro da Bela Vista – Bixiga

Nossa mudança para a capital de São Paulo aconteceu em meados de 1933. O endereço: Rua Dr. Luiz Barreto, 299, bairro da Bela Vista (Bixiga). O nome da proprietária: dona Maria Antonia Massaro, viúva, descendente de italianos. O imóvel assemelhava-se a um cortiço, mas habitável, saudável e de aspecto agradável. Ali moravam, em aposentos independentes, a dona, o filho Agostinho Pagliaro com a esposa Anunciata Cuchi e os filhos do casal, Antonia, Tereza, Luiz e Cláudio (cunhado, irmã e sobrinhos de minha mãe). Na parte superior (sobrado), moravam o Amadeu Cuchi, sua esposa, Ema Ipolito, e o filho do casal, Lauzinho (meus tios e primo). Meus pais (Manuel, Fiorina), minha irmã Olívia e eu, a partir do dia 1º de março de 1935 (nascimento de minha irmã Cecília), ocupávamos o andar inferior do sobrado. O aposento inferior dos fundos, no lado direito, era ocupado por dona Libra Massaro, o marido Cármino Ferro e os filhos do casal: Salvador, Lurdes e o "Tico" (nunca soube o nome deste), a dona Libra era irmã de dona Antonia. E, por último, no aposento inferior, nos fundos, no lado esquerdo, moravam o filho mais velho da família Nacarato, a esposa, dona Rosa (se não me engano era esse o nome dela) e, parece-me, uma filha.
A propriedade da família Nacarato era colada à propriedade de dona Antonia Massaro, do lado direito, o número era 297.
Quando morávamos no Bixiga, o calçamento era de pedra (passeio) e paralelepípedos (meio das ruas).
Quando eu tinha (mais ou menos) 4 anos de idade, lembro que por curto prazo de tempo, nós e a família do tio Amadeu fomos morar num sobrado situado à Rua Joaquim Floriano, no bairro do Itaim Bibi. O local abrigava confortavelmente todos nós. O bairro do Itaim Bibi em 1935 era uma mistura de fazenda e chácaras, não existia calçamento, o solo (parte carroçável) era de terra batida, ladeado por folhagens e mato.
O leite, os pães, as frutas, as verduras e os legumes eram fornecidos de porta em porta e transportados por carroças puxadas por cavalos ou burros.
Em alguns lugares que conheci (Itaim Bibi, Bixiga) existiam cocheiras, criava-se cabras, cabritos, leitões, coelhos, galináceos e outras aves. Plantava-se algumas verduras, legumes, frutas, flores, para consumo próprio ou para venda.
Desconheço o motivo que nos levou de volta, para morar no Bixiga. O endereço: Rua Dr. Luiz Barreto, 329. O imóvel era também uma espécie de cortiço, com 6 quartos separados por uma porta central, que dava acesso de quarto para quarto, cuja chave era utilizada somente com o consentimento de cada morador. O pátio era pavimentado com paralelepípedos, servia de garagem e passagem dos moradores, era também saudável e agradável de se morar.
O senhor Vicente Sgarro, casado com dona Carmela, era o dono do lugar, o casal, o filho Miguel, o neto Vicente e a nora moravam na outra propriedade, no bairro de Vila Nova Conceição, ex-Rua Ressaca, hoje, Bueno Brandão. O seu Vicente Sgarro era alto funcionário do Mapin Stores (no Centro).
A filha do dono era dona Angelina, casada com o senhor Paschoal Spechio, ela administrava e morava (no mesmo local, ao lado dos inquilinos) com o marido e os filhos Maria, Vicente e Carminha. O cômodo era o primeiro, ficava na entrada, com vista para a rua. No segundo cômodo, moravam os meus tios Amadeu, Ema e meus primos Lauzinho (Zinho), José (Zito), Maria (Nena) e bem mais tarde a caçula Leonilda (Filó). A janela dava vista para o centro do pátio. Eu, meus pais, minhas irmãs Olívia, Cecília e, a partir do dia 10 de setembro de 1937, Aparecida, habitávamos o terceiro cômodo, exatamente igual ao segundo. Ao lado do nosso cômodo, morava uma senhora, idosa, parente dos donos, a porta e janela eram voltadas para os fundos do pátio. Nos fundos do pátio havia dois cômodos geminados, com portas e janelas voltadas para a rua, neles moravam o senhor Eugênio, a esposa, a filha mais velha Joaninha, casada, o esposo dela, seu bebê recém-nascido (parece-me que havia a filha do meio também), o filho Renato e a filha caçula Virginia (minha primeira companheira de brincadeiras e pretensa namoradinha). Exceto essa família que habitava os dois cômodos dos fundos, cada família das demais habitava um só cômodo, que servia ao mesmo tempo de sala de visitas, sala de refeições, sala de banho e dormitório. O tanque, o banheiro e a cozinha eram de uso coletivo. O chuveiro não era elétrico, os banhos de chuveiro eram restritos aos fins de semana. Durante a semana, tomávamos banho no quarto, em bacias grandes com água quente e todos participávamos dessa rotina. Mesmo assim, para quem nasceu e viveu na roça, pobre e sem conforto, nos acostumamos a isso, eu tive nesse lugar, uma infância, adolescência e juventude muito felizes!
O terreno era colado aos fundos da Igreja de Nossa Senhora Achiropita. Depois de alguns anos morando nesse mesmo local, o seu Paschoal (marceneiro na loja Mapin Stores), a pedido da esposa Angelina, construiu uma caixa de engraxate para mim e outra igual para meu primo Lauzinho. A minha eu guardo ainda com muito carinho, permanece intacta. Nós ganhamos também o material completo para polir os calçados. Eu me recordo que aos domingos, após a participação na missa da Igreja Nossa Senhora Achiropita, ia para casa, apanhava a caixa de engraxate, me posicionava ao lado da porta do bar da esquina da Rua Conselheiro Carrão com a Rua Treze de maio e conseguia conquistar a simpatia de alguns fregueses e com isso defendia uns bons trocados para as matinês do Cine Esperia (entrada pela Rua Conselheiro Ramalho e saída pela Rua Rui Barbosa), ou Cine Rex (entrada pela Rua Rui Barbosa e saída pela Rua Conselheiro Carrão).
Em frente à nossa residência, no 334, moravam o proprietário, João Massaro (feirante, manipulava e vendia palhinhas de aço para polimento de utensílios domésticos), casado com dona Paulina e os filhos Nelson, Romeu, Antonio, Celestino, Ivone e Marlene. Entre seus inquilinos: meus avós maternos, João Cuchi, Antonia Iorio e os filhos Antonio, Adelina, Pedro, Ana, Agostinho, Ângelo e Nair Luiza.
Ainda com referência a seu João Massaro, era um dos poucos que possuíam rádio e por isso eu e meus primos Lauzinho e José fomos atraídos. Para nós o rádio era novidade, então nos propusemos a ajudar o seu João no seu trabalho, que ele executava no porão da sua residência. Ele entregava a cada um de nós um pacote grande de palha de aço fina, nos ensinou como dividi-lo e transformar o material em palhinhas de aço de tamanho padrão, feito isso, nós as embalávamos e saíamos para vendê-las nas proximidades, pelo preço por ele estipulado. Para cada unidade vendida, recebíamos um valor que nos interessava. Além disso, tínhamos o privilégio de ouvir, quando quiséssemos, às transmissões radiofônicas de nosso gosto.
Por falar em rádio, quando meus pais completaram as bodas de prata (5 de outubro de 1954) meu pai deu de presente para a minha mãe um radio, a marca dele é Bel, ainda está conosco, intacto como se fosse novo em folha, já não funciona, não existe mais condições e material para reparos.Antes disso apelávamos para o seu João Massaro ou, dona Angelina, a dona do local onde morávamos.
No número 344 morava o proprietário e comerciante: Antonio Massaro, casado com dona Maria, os filhos: Angelina, Laura, Imaculada, Celestino, Matilde e a Marta (Lili).
No número 330, existia a leiteria de dona Joaninha, que vendia o pão, leite, doces, guloseimas, refrigerantes e algumas bebidas, à vista ou à prazo (com caderneta).
Ao lado direito da leiteria moravam o seu Henrique, a esposa, e três filhos: Geraldo, Valdemar (amigos de infância) e o caçula (não tenho certeza) Valter.
No 314 era a Vila do Paulo, com entrada pela dr. Luiz Barreto e os fundos na Saracura Pequena, nós a apelidamos de "morrinho", havia um campinho de futebol improvisado onde nos divertíamos bastante. Brincávamos inclusive de "Bandidos e mocinho" e sempre escolhíamos a "mocinha" mais bonita da nossa rua.
Nessa vila morava uma porção de gente, mas só me lembro do Luizão, do "Rospa" e seus familiares.
No número 305 havia o armazém de secos e molhados dos irmãos Hugo e José.
No número 296, morava o seu Pedro (Pedrão, viúvo da primeira mulher) com a nova esposa e o filho Jacomo. Do mesmo lado, um pouco acima de onde morávamos,residiam o casal Dante e Angelina Graziano, as filhas Rosinha (uma de nossas "mocinhas") e a Margarida.
Na Rua Treze de Maio,704, moravam meus bisavós maternos, Rocco Iorio, Filomena Palombo, os filhos:Davi, Domingos, André e o neto Romeu (filho do Davi). Em frente, no número 691, moravam os tios de minha mãe Vitório Razera, a Giuseppina Iorio, os filhos Henrique, Santino, Eugênia e Eduardo (Tostão).
Na Rua Rui Barbosa, moravam, os tios de minha mãe: Giuseppe Iorio, Marina e, os filhos: Romilda, Eugênia e o "Doro" (não lembro o nome deste).
Na Rua dos Ingleses, 197, ainda é a casa da família Puglisi, continua da mesma maneira que eu conheci e freqüentei na minha infância.O Armandinho nasceu no mesmo ano que eu, 1931.Hoje ao lado esquerdo dessa residência está o Teatro Ruth Escobar.Em frente ao teatro está o antigo Hospital Esperança, atualmente, Hospital Infantil Bom Jesus de Praga.Atrás desse hospital i.e.na rua dos Franceses, havia um grande terreno baldio onde meus primos Lauzinho, José, meu tio Ângelo (eram mais novos que eu) e eu íamos para colher algumas frutas,caçar passarinhos e outras aventuras. Depois disso, descíamos pelo barranco do lado oposto, que dava acesso à Rua Almirante Marques de Leão e da Rua Rocha tínhamos acesso ao campo de futebol de várzea, Lusitana, e nesse campo jogávamos uma "pelada".
Na Rua dos Ingleses, 308, existia o palacete da família Salim Maluf, hoje Edifício Morro dos Ingleses. Eu freqüentei algumas vezes o palacete, o Paulo Salim Maluf tem a mesma idade que eu, um mês de diferença eu acho. Minha saudosa mãe trabalhou nesse palacete, ela era a babá do Paulo Maluf quando ele era ainda uma criança.
Algumas vezes, quando garoto, nos reuníamos e íamos brincar no quarteirão da rua dos Holandeses, ao lado esquerdo do famoso palacete.
Em 1942, eu e o Paulo Salim Maluf começamos a freqüentar o mesmo Colégio São Luiz, ele já era de família abastada, e estudou no curso diurno, eu, consegui entrar para o curso noturno, trabalhava durante o dia e do trabalho ia direto para o colégio.
No número 561 ficava a escola Maria Pia di Savoia, nessa escola eu e minha irmã Olívia cursamos 5 anos do primário, minha irmã Cecília também estudou lá mas,não completou o curso, continuou no Grupo Escolar Maria José (Rua Manuel Dutra com Rua Treze de maio).
A minha irmã Aparecida concluiu o primário no Maria José.
No Bixiga, conheci gente famosa na época, o Agostinho dos Santos, antes da fama, cantava nos bailes promovidos por famílias nossas conhecidas,o Adoniran Barbosa, meu conterrâneo de Valinhos, o Roberto Fioravante (seresteiro) Arnaldo Pescuma (tenor lírico do Teatro Municipal) Manrico Patassini (tenor lírico da Radio Gazeta), Ponce de Leon (jogador do São Paulo F.C.), ele era ruivo e eu também, e foi aí que ganhei o apelido de "Ponce de Leon", eu ficava bravo,quando pessoas que eu não conhecia me chamavam por esse apelido.
Nos fins de semana e feriados, em companhia de primos, tio (da mesma idade que eu) amigos, depois de um banho caprichado, cabelos bem tratados, de terno "jaquetão" e gravata, íamos paquerar as garotas (elas usavam vestidos simples, bonitos). Elas ficavam sempre do lado oposto aos pretensos galãs. Iam da esquina da Conselheiro Carrão com a Treze de Maio até a esquina da Rua São Vicente, e, da esquina da Conselheiro Carrão até a esquina da Rua Rui Barbosa e vice-versa.
Começávamos às 7 da noite e seguíamos até às 10 da noite.
Alguns se "acertavam", outros ficavam "chupando os dedos" eu era um deles, elas fugiam dos "baixinhos".
Eu guardo comigo muitas lembranças, principalmente do Bixiga, mas, o espaço é curto, as saudades imensas, foi lá que praticamente eu cresci, não em tamanho, continuo "baixinho" "invicto" nunca me casei, mas ainda não perdi a esperança.
Eu morei no Bixiga de 1933 até o ano de 1951, ao completar 20 anos de idade, mas, sempre voltava e, ainda volto de vez em quando, para rever, conversar com velhos amigos e amenizar as saudades!

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