A fábrica de tubos e a olaria: Jardim São Luiz

Os caminhos da história são um tecer constante, de um emaranhado de linhas que recebem beleza e encanto na forma, com as pessoas. Como um tear que junta as linhas, as histórias são feitas das circunstâncias necessárias à vida formando a arte. Esta beleza está na vida de dois empreendedores que tiveram uma relação com o incipiente desenvolvimento de São Paulo na área de construção de moradias simples do povoado que se iniciava: Luiz Grassmann e Geraldo Maier, que muitos insistem em ser Meyer.
Num Jardim São Luiz em desenvolvimento, com muitas moradias ainda a serem erguidas, muitos poços a perfurar e a necessidade urgente de material de construção, surgiram muitas olarias, onde os proprietários das datas (denominação para os terrenos) encomendavam os seus milheiros de tijolos. Toda família na olaria moldava tijolos, batia o barro e enfornava uma produção alta para a época. Na olaria o bem mais precioso era o forno incrustado, como um castelo dentro da mata.
As pedras para uma eventual coluna ou cimentado eram lavadas, tiradas de rios. As britadas de hoje não existiam e cimento era artigo para requintados serviços. De resto, o assentamento era no barro mesmo, com amarrações entrelaçadas de dar inveja a muita engenharia da atualidade, pois os recursos eram escassos.
Na esquina da atual Rua João Fernandes Camisa Nova Jr. com a Rua José Rodrigues Gomes foi constituída a primeira fábrica genuinamente jardinense, de tubos moldados para poços. Geraldo Maier, homem íntegro e muito prestativo, sempre disposto a colaborar com o desenvolvimento do bairro, fornecia tubos moldados por formas bipartidas que, quando abertas, tinham o formato do poço perfurado, o que substituía o atijolamento do mesmo, facilitando o serviço e ganhando tempo. Os tubos tinham um mesmo diâmetro, formato igual, e o poço devia estar com a mesma medida, o poceiro não podia afunilar o fundo.
A família Maier, tendo à frente o senhor Geraldo Maier, à testa dos negócios, crescia e fazia ao seu redor a alegria e divertimento de muita gente com suas famosas disputas atléticas. Anunciava-se de boca em boca, mostrando que haveria festa das princesas, que desfilavam em caminhão aberto com as moças na carroceria segurando firme na boléia, todas bem satisfeitas com seus encantos.
Um cartaz exposto à frente de algum comércio, apoiado por algum patrocínio que ajudava no desenvolvimento do local, anunciava também o evento. A tão esperada disputa das memoráveis corridas partia pelas ruas do bairro, todas enfeitadas que, no domingo, as crianças pediam a Deus para que o dia não acabasse, de tão bonito. Os anônimos destas peculiares corridas tinham como única pretensão a diversão de todos quanto faziam parte daquele momento único, onde o vencedor era recebido com os lauréis típicos, agraciados com medalhas ao peito, e exibiam com orgulho o troféu da vitória.
A família de Henrique Grassmann, de descendência alemã, chegou ao Brasil em 1880. Henrique com o tempo desposou Louise, natural de Blumenau, e a família se ampliou com a chegada dos filhos Henrique, Luiz, Carlota, Olga e Margarida. O jovem Luiz, o Lut, empreendedor, tornou-se sócio de um porto de areia, comum à época, na Chácara Santo Antonio com dois pequenos empresários portugueses, José Costa e João Costa. A areia era extraída manualmente, com muito trabalho e esforço, com umas conchas que colocadas no convés do batelão, embarcação de fundo chato, eram descarregadas na margem do Rio Pinheiros, que já passava pela retificação de seu curso nos seus 45 quilômetros de várzea sinuosa, passando para 27 quilômetros.
A empresa Giroflex, tradicional fabricante de móveis de escritório adquiriu área da família Grassmann que deste modo deslocou-se para a Vila Prel, em 1940, próxima ao início da Estrada do Campo Limpo adquirindo do “João Doutor”, tradicional morador do Bairro Jardim São Luiz, uma gleba para implantar uma olaria, de Luis Grassmann.
Neste tempo um mercado promissor em expansão, Santo Amaro via crescer seu pólo industrial, e em 1942 era fundada a “Sociedade Eletro Mercantil Paulista – SEMP”, fabricante de rádios e “eletrolas”, na Avenida João Dias, 2476, indústria deste tempo áureo da expansão industrial paulista em Santo Amaro. Em sua ampliação do final da década de 1950, teve fornecimento de tijolos da olaria, e também forneceu os pontaletes da construção das pontes em arco da “The São Paulo Tramway Light And Power Company Limited”, ou simplesmente, Light, em 1941.
Sempre empenhados no desenvolvimento de São Paulo e mantendo os compromissos assumidos nos ramos diversificados de areia, tijolos e pontaletes no manejo de madeira que no início das atividades eram transportados por animais atrelados em carroças reforçadas foram aos poucos sendo trocados por um pequeno caminhão, pela demanda dos negócios com ajuda da família. Os Grassmann, mais tarde, deslocaram-se para o Bairro da Lagoa, em Itapecerica da Serra, local da expansão do complexo viário Rodoanel que se ligará com a Rodovia Imigrantes, pelo sudeste.
Estas famílias mantiveram o princípio básico da honradez e são nomes a serem lembrados pelas gerações futuras como empreendedores na região de Santo Amaro, engrandecendo a pujança de São Paulo.

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