Paulistana de carteirinha II – Sampa da minha juentude e maturidade

Antes mesmo da minha idade madura, São Paulo se decalcou de tal forma no meu coração para nunca mais sair. Ela se fez uma tatuagem em mim. Afinal, foram 45 anos vividos nessa cidade onde nasci, fui criança, desabrochei para vida e me fiz mulher.
Assim como os milhares de aviões que ganham o céu decolando de Congonhas, eu decolei de São Paulo para a vida na minha maturidade.
Muitos são os endereços e pontos da megalópole registrados na minha memória indelevelmente.
Um deles, a grande, imensa, Avenida Nove de Julho, passagem obrigatória e diária por muitos anos, meu caminho para "tudo". Nela vi desfiles em feriados importantes, vi principalmente a mudança de frotas de carros e ônibus, como um grande salão do automóvel a céu aberto, contribuindo para sua poluição. Por ela viajei quilômetros incalculáveis da casa ao trabalho e vice versa, algo extenuante então, hoje uma grata saudade.
O que dizer então do Parque do Ibirapuera, meu refúgio, meu pulmão, minha busca da natureza na grande selva de pedra. Se na infância ele era meu programa dos domingos, dos Salões da Criança, do Automóvel e das FENIT, cuja importância minha cabecinha não alcançava, hoje para mim é o símbolo da cidade que luta para não se deixar sufocar.
Ainda nos Jardins, a Rua Maestro Elias Lobo, travessa da Avenida São Gabriel, meu endereço de toda juventude e maturidade, meu lar, meu centro até 1986. Ali via e ouvia a cidade à minha volta e me mantinha num refúgio seguro e confortável, tecendo planos não realizados, enquanto não ousava me libertar.
Já no alto do planalto, na Avenida Paulista, precisamente no prédio do Banco Real, vivi meu trabalho, meu sustento, meu aprendizado para a vida. Ainda nela, mais adiante na Maternidade Santa Catarina, já tendo exorcizado fantasmas, e desfeito amarras, guardo a memória de mais uma realização como mulher e mãe. Avenida Paulista 200, nobre e imponente, tornou-se o primeiro endereço da minha Mariana, enquanto na Maternidade Alvorada, na Avenida Ibirapuera, eu tinha tido meu momento maior na vida, minha redenção, ao dar a luz ao meu primogênito, mais um paulistaninho, anos atrás.
Como esses destacados pelo fator afetivo, houve muitos outros endereços marcantes, a Barão Duprat de minha infância vagamente recordada, Rua Direita, Viaduto do Chá, e tantos outros locais, que muito mais que cartões postais e ícones da cidade, eram literalmente o quintal da minha casa.
Também houve o Conjunto dos Bancários, na Vila Mariana, povoada de ciganos que encheram minha infância de magia e receios, e quem sabe outros que a lembrança agora não pode alcançar.
Enfim, se hoje me refiro à minha terra como quem a tem apenas no coração e nas recordações o motivo foi que depois de tudo que vivemos juntas veio a vontade de mudar, descer a serra a caminho do mar, na rota oposta a dos desbravadores, que fizeram dessa terra o orgulho do nosso povo, do nosso país.

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