Nick Bar e a boemia paulista

Logo após a segunda guerra mundial e a queda da ditadura de Getúlio Vargas, em 1945, São Paulo viveu um período de efervescência cultural, tempo suficiente para que surgissem o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), a Escola de Arte Dramática e a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, Profundamente ligado a esses acontecimentos, o Nick-Bar, inaugurado em dezembro de 1949, pontificou como lugar de encontro obrigatório de artistas, boêmios e políticos de São Paulo.

Desde a criação do TBC, Joe Kantor, boêmio de carteirinha, freqüentador da noite paulistana, imaginava estabelecer-se nas mediações da Rua Major Diogo, lugar que principiava a atrair as atenções da sociedade de São Paulo.

Amante de teatro, Kantor era habituê do TBC e amigo de Franco Zampari, agitador cultural e mecenas da casa. Kantor ouvia de Zampari queixas quanto ao tempo perdido pelos atores e técnicos que, por não terem lugares próximos para fazerem as suas refeições, eram abrigados a longo do tempo de intervalo nos ensaios. Kantor imaginou imediatamente, um restaurante perto dali que pudesse oferecer refeições caseiras e baratas durante o dia e que, à noite, se transformasse num piano-bar.

Franco Zampari era, por coincidência, o proprietário do prédio vizinho ao TBC e se propôs a cedê-lo mediante um aluguel “bem módico”. Chegou mesmo a financiar os trabalhos finais da decoradora Fifi Assunção, que ele próprio indicou. Em pouco tempo estava funcionado o Nick-Bar, batizado com o nome da peça de Willian Saroyam, The Time of your Life, traduzida por Gustavo Nonnemberg, como Nick-Bar, álcool, brinquedos, ambições…, primeiro sucesso efetivo do TBC.

Durante o dia os freqüentadores do restaurante eram, em sua maioria, os artistas do TBC. Quem de fora almoçasse ali podia topar com a Cacilda Becker vestida de Maria Tudor ou, noutra ocasião, com o elenco inteiro de A Dama das Camélias, devidamente trajado à maneira do século XIX. Era impossível para os artistas trocar de roupa ou desfazer a maquiagem no curto tempo que lhes era dado para as refeições.

O TBC e o Nick-Bar se comunicavam através de uma porta larga que havia na sala de espera do teatro, de maneira a permitir o uso, em comum, dos lavatórios e do telefone público. O Nick-Bar era muito simples: uma sala não muito grande, quinze metros, um piano e um contrabaixo. Renato Consorte, ator que naquele tempo exercia as funções de assistente de produção da Vera Cruz dizia que o bar era uma festa constante. Já Nydia Lícia achava o bar, o mais elegante da época, onde todas as noites se reuniam grã-finos, intelectuais e artistas, para ouvir o jovem pianista recém-chegado da Itália, Enrico Simonetti.

O Nick-Bar vivia novas surpresas a cada noite, desde a inauguração, organizada como se fosse a estréia de um espetáculo teatral, com venda antecipada de ingressos. Cantores e músicos se apresentavam ali, graciosamente. A Orquestra de Tonny Dorsey, por exemplo, quando veio a São Paulo, depois de tocar profissionalmente, ia para lá e “dava canja” até às 9hs da manhã. Friedrich Golda, o pianista e compositor tocou todas as noites em que esteve na cidade, lá no Nick.

Também o Bernstein, maestro já falecido, e o Isaac Stern, violinista e diretor do Metropolitan Hall, Piaf, a cotovia da França cantou no Nick-Bar, e Jeanette MacDonald, Jacqueline François, Marion Anderson, Sammy Davis Jr., Nat King Cole, Sarita Montiel e muitos outros. Ali se apresentaram o mímico Marcel Marceau, a atriz da Broadway Mary Martin e os atores Fredy Mac Murray, Dorothy Dandridge, César Romero, Claude Dufont, Gleen Ford e Larry Hagman, que se popularizou como o amo de Jennie é um Gênio e como o JR do seriado Dallas.

Nem só de estrangeiros viveu o Nick-Bar: Inezita Barroso, Dorival Caymmi, Sylvio Caldas, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Aracy de Almeida, Linda e Dircinha Batista eram presenças constantes. E mais: Di Cavalcanti, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Gilberto Freyre, Guilherme de Almeida, Ary Barroso e Francisco Matarazzo Sobrinho, o Cicillo. Faziam ponto no Nick-Bar os políticos Ulysses Guimarães, Jânio Quadros e Adhemar de Barros. No começo dos anos 50, quando os atores Sérgio Cardoso e Nydia Lícia e Ruy Afonso e Elizabeth Henreid se casaram, a recepção aos convidados foi realizada no pequeno bar da Major Diogo.

Em 1955, cansado, Joe Kantor resolveu por um ponto final na sua aventura. E o fez de forma muito original: deu o bar de presente – piano alemão, contrabaixo, estoque de bebidas e a tradição. Passou tudo para o Afonso, o barman.

Um ano mais tarde, em 1956, o Nick-Bar havia fechado as portas. Dele, só restaram as lembranças e o título do samba-canção de José Vasconcellos, cantado, na época, por Dick Farney: “Foi neste bar pequenino, onde encontrei meu amor…”.

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