São Paulo mudou?

Era uma casa de armas chamada Riomar, mineiríssimo nome, que levou o coronel (que pagou patente na guarda nacional), a registrar assim seu filho: Riomar.
Isso me contaram, mas a casa – a que falo – ficava ali na Rua Guaianases, pertinho da antiga rodoviária. Lembro-me de um dia em que, passando por ali, vi um menino olhando fascinado para as armas que se alinhavam na vitrine (rifles, revólveres – um 22 com cabo de madrepérola que, me pareceu, ser o que mais lhe chamou a atenção – repetições e até passarinheiras) e o menino os namorava, olhos cobiçosos. Não sei de suas intenções ao contemplá-los; não sei se de matar, se de morrer ou se apenas de os ter, manusear algo tão concreto, mas que traz em si a maior das abstrações (“Da última vez que ela me assassinou, como já ocorreu por diversas vezes, senti que dessa vez era pra sempre, mas ela candidamente se virou pro lado e adormeceu”, não sei se à época este fragmento de texto me passou pela cabeça, talvez sim, talvez não, mas gosto muito dele).
Na vitrine opaca, o rosto refletia. Não era tão parecido com o rosto real, mas o que é a realidade senão um amontoado de distorções?
Nos caminhos de Minas, ainda há um meninozinho chamado Riomar (Minas é terra de nomes estranhos, como Diadorim, Riobaldo e tantos outros) cujos cabelos o tempo se encarregou de embranquecer, já o garotinho que se encontrou (ou se perdeu) nas vitrines da Casa Riomar, talvez ainda perambule por aí, mirando-se nas poças d’água, nas vitrines coloridas, nas manchetes estampadas nas bancas de jornais ou nas novelas de televisão.
A Casa Riomar – a loja de caça e pesca – não sei se ainda existe. São Paulo mudou tanto. Dia 02 de Abril de 2008 estive na Casa São Paulo (fazia muito tempo que não ia à região da boca), mas não tive coragem de fazer um tour pela área, como sempre perigosíssima, pois afinal, São Paulo não mudou nada.

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