A primeira noite que passei com ela

Foi no ano de 1950. Ela me convidou para um baile de formatura nos salões do Clube Paulistano, nos Jardins (esquina da Oscar Freire com a Rua Augusta), um clube de elite. O traje obrigatório era "blacktie", terno preto com gravata borboleta, também preta. Eu não tinha terno preto. Tinha um azul marinho. Ela disse que seus irmãos iriam também com azul marinho. Na noite do baile fomos de carona com a mãe da sua amiga. O salão era realmente magnífico. Amplo, decorado com janelões que davam para bem cuidados jardins. Acomodamo-nos em uma das mesas, eu, ela, a amiga, a mãe e meus dois futuros cunhados. A certa altura do baile, quando estávamos todos dançando, um dos rapazes avistou um indivíduo pegando uma bolsa que ficara sobre nossa mesa. Rapidamente correu, avisando-nos do ocorrido. Saímos em disparada em direção ao larápio. Este saltou pela janela cujo parapeito não tinha mais que um metro de altura e ficava ao nível do jardim. Nós fomos atrás, e conseguimos pegá-lo. Agarramos o delinqüente e o levamos para o hall de entrada do salão chamando a polícia que chegou em pouco tempo. Os guardas disseram que iriam levar o indivíduo mas que precisaríamos formalizar a queixa e de testemunhas para os tramites legais. Enquanto o ladrão era levado no camburão, nós seguimos no carro da senhora até a Rua Brigadeiro Thobias no bairro da Luz onde ficava a delegacia de polícia. Lá soubemos que o escrivão e o delegado só chegariam às sete da manhã. Era madrugada. Como não tinha outro remédio resolvemos esperar. Enquanto isso, ficamos jogando buraco com um baralho surrado cedido por um dos plantonistas. Às sete horas chegaram as "autoridades". Depois de cumpridas as formalidades, fomos dispensados. Minha namorada, seus irmãos, a amiga e a mãe foram para casa. Eu segui para o emprego no prédio Matarazzo, na Praça do Patriarca, onde hoje se encontra a sede da Prefeitura de São Paulo. Tive o cuidado de tirar a gravata borboleta e colocá-la no bolso.

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