Assobiando fiu-fiu!

Meu pai assobiava. Os vizinhos assobiavam. Meus tios assobiavam. Todo mundo assobiava.
Assobiavam o quê? Músicas, ora essa! Também imitavam gorjeios de passarinhos e assobiavam para mulher bonita. O assobio era um hábito nacional, havendo inclusive apresentações de artistas do assobio nas rádios. E havia os sensacionais! Verdadeiros gorjeadores! Que fôlego! Que delícia ouvi-los.
Há algum tempo vi pela TV um programa sobre o assobio e o quanto se tem procurado revivê-lo. Existe concurso de assobiadores e na Inglaterra há um curso e um museu com partituras para assobiadores.
Meu pai gostava de passarinhos e os tinha em casa, em gaiolas que ele mesmo fazia. Era uma beleza ver o seu trabalho artesanal, furando os pauzinhos e passando o arame para formar as partes da gaiola. Fazia-as quadradas e também com formatos góticos. Fazia também os alçapões.
Ele caçava, criava e reproduzia canários, avinhados, coleirinhas-do-brejo, papa-capins e outros que não me lembro os nomes. Lembro-me das gaiolas penduradas em pregos nos muros da casa e até nas paredes da própria casa, lá no alto. Para alcançá-las ele pregava um prego grande na ponta de um cabo de vassoura e o entortava como um gancho. Ao final do dia, quando voltava do trabalho, tratava de todos os bichinhos, assoprando a casca do alpiste dos cochins, trocando a água, dando-lhes frutas e por fim, cobrindo as gaiolas com capas de tecido de algodão branco. Os que estavam chocando ovos ou tinham filhotes pequeninos eram colocados dentro de casa.
Minha mãe ficava louca com a passarinhada, mais pela sujeira que meu pai fazia ao tratá-los. Era aquela palha de alpiste pelo chão com água derramadada dos bebedouros e ele pisoteando por cima. Depois entrava em casa!
Eram constantes suas idas à Serra da Cantareira, levando gaiolas e alçapões, juntamente com outros passarinheiros para caçar. Muitas vezes não caçava nada, mas mesmo assim voltava feliz da vida. Dizia que era uma beleza a passarinhada toda cantando na mata, chamados pelos das gaiolas e vice-versa.
Muitas tardes, me lembro bem, ele se sentava no degrau da porta da cozinha e ficava ouvindo-os cantar. Se eles não cantassem, ele então assobiava para provocá-los e conseguia respostas. Ele assobiava o canto diferente de cada pássaro. Imitava todos eles, que lhe retribuíam. Ele gostava muito dos avinhados.
Meu pai não vendia seus pássaros. Algumas vezes, trocava-os por outros, principalmente nos encontros de passarinheiros que aconteciam no Alto da Moóca.
Muitas vezes sentei-me no degrau da cozinha com o meu pai, e era mesmo uma beleza ouvir aquela orquestra de pássaros. Eu só tinha muita pena por vê-los nas gaiolas. Hoje, onde moro, próximo de uma reserva de Mata Atlântica em Cotia, ouço o canto da passarada, mas felizmente estão soltos. Pena que meu pai já não esteja vivo para assobiar com eles.
Meu pai assobiava bonito! Eu gostava de ouvi-lo. Assobiava valsas antigas – A deusa da minha rua, Luar do Sertão, Mensagem e outras. Assobiava também tangos, chorinhos… Morávamos na Rua Florianópolis e pela manhã, quando ia para o trabalho, já saía assobiando pela rua. Do mesmo modo fazia à tarde ao regressar, e eu então já sabia que ele estava chegando.
Contudo, nunca me chamou com um assobio, como muitos faziam. Ele dizia que só cachorro era chamado com assobio, com gente era falta de respeito.
Eu achava muito bonito assobiar e quando lhe pedia que me ensinasse ele se recusava e dizia que assobio era coisa de macho. Para a mulher o assobio era uma coisa feia e nada feminina. Assim eram os preconceitos da época. Do mesmo modo proibia-me esmaltar as unhas dos pés. Dizia que era coisa de biscate (palavra fora de moda nos dias de hoje e até em desuso).
Nas ruas, nós, as mulheres, principalmente as jovens, recebíamos muitos fiu-fius e quase sempre acompanhados de gracejo, mas nada de ofensivo ou pornográfico, apenas elogios: "encontrei a nora que a dona Olga queria", "essa moreninha é a minha perdição", "meu coração desanda quando você passa", "que morena cheirosa" etc.
Vale lembrar que havia as "balzaquianas", ou mulheres de trinta (lembram da música de carnaval? "Sete dias da semana eu preciso ver minha balzaquiana"). E o Miltinho cantando… "Eu e você, mulher de trinta". Estas também recebiam fiu-fius e elogios.
Fazíamos caras de brava mas na verdade gostávamos muito, porque era a apoteose de nossos esforços diante do espelho!
Uma minha amiga morou por dois anos nos Estados Unidos e disse que o que mais sentia falta do Brasil eram os fiu-fius e os elogios. Que nos Estados Unidos não adiantava se produzir toda porque os gringos nem viravam a cabeça para olhar. Ela se sentia por baixo e com a auto-estima a zero.
Já procurei gravações de músicas com solo de assobio e nunca encontrei. Faz uma falta, não é mesmo? Do mesmo modo, sinto falta da gaita de boca, por ser contemporânea do assobio. Todo menino e todo rapaz também tinha uma gaita de boca. Lembram-se da "Dança das horas" tocada pelo Edu da Gaita? Maravilhoso!

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