A sociedade brasileira tinha se acostumado ao velho conservadorismo, que se pensava não mudar nunca. A simplicidade do povo até então dividido em duas classes. Ricos e pobres.<br>Não se conhecia ainda a classe média. Era um tempo em que não se pensava muito em estudar. Quem tinha um bom ofício era sempre bem visto pelo pai da moça. Um tempo em que o respeito era bem grande. Os professores eram bem remunerados, e tanto o professor como a professora eram bons partidos para o casamento.<br>A música era o samba, o jazz e o bolero. Para os mais sofisticados a ópera. E o teatro municipal, nos dois maiores centros artísticos, São Paulo e Rio de Janeiro, recebiam sempre bons espetáculos. Aqui no Brasil o nosso samba era acompanhado por conjuntos regionais, quando não estavam presentes as orquestras. Porém, na metade dos anos 1950, teve início o maior movimento musical de todo o mundo, aqui no Brasil a bossa nova e nos Estados Unidos o rock and roll. Foram dois grandes abalos, e nos Estados Unidos o sofrimento foi maior. Cantores até então intocáveis ficaram bravos. Frank Sinatra foi o reflexo disso. Foi visto até dando socos na mesa de raiva. Um moço de topete, Elvis Presley, era o que chamava para si os holofotes. Aqui no Brasil a mudança não chegou a tanto, mas críticas foram muitas. O samba que era acompanhado por conjuntos regionais com vários elementos e muitos metais, fora violão, pandeiro e cuíca. Passaram a ser com apenas três instrumentos, piano, baixo e bateria. O sucesso foi maior que a crítica. Letras simplórias, de compositores até então desconhecidos do público, como Tom Jobim, um artista que se apresentava em restaurantes e casas sem muita agitação, passou a ser uma das celebridades da nova música. João Gilberto, um baiano que mostrou uma batida diferente ao violão. Um embaixador que esteve na França e em Londres também passou a ser destaque na música. Era um poeta de mão cheia escondido em uma embaixada, até que passou a colocar a música acima do cargo que ocupava.<br>Pediu a seu superior para não ficar mais longe do Brasil e aqui ficou no meio daqueles que gostavam de estar no bar Veloso, bebendo e compondo. Dali surgiu “olha, que coisa mais linda, mais cheia de graça”. Seu nome foi colocado no pedestal da música. Vinicius de Moraes. Até então mais conhecido pela alta sociedade, como eu mesmo observei numa residência do Jardim paulista, quando uma música dele era tocada no rádio.<br>Porém, o movimento bossa nova não foi tão longe como deveria ir. Talvez relapso de todos aqueles que deram impulso ao movimento, Menescal e Boscolli, Carlos Lira, Jonny Half, o precursor. <br>As reuniões na casa de Nara Leão se escassearam, pelo menos não foi mais notícia. Como se sabe, tudo começou na casa dela. Mas em 1964, outra turma não tanto da pesada começou a dar as cartas e jogar de mão. Eram Roberto e Erasmo Carlos, Tim Maia, Carlos Imperial, tendo o radialista Valter Silva por trás dando a maior força no seu programa Picape do Pica Pau. A princípio aquela música de início bem simples, que começou a ter impulso com O Calhambeque veio estourar mesmo quando Valter Silva fez um megaespetáculo de música no Teatro Paramount, onde apareceram Elis Regina, Alaíde Costa, Jair Rodrigues, Ronie Cord, Demetrius e outros. Em 1965, a TV Excelsior fez o primeiro festival de música brasileira, tendo como palco a cidade do Guarujá, onde Elis Regina despontou com a música de Edu Lobo, Arrastão.<br>Em seguida veio a TV Record com o mais célebre festival de música, que não sai da memória de ninguém, com aquele empate entre a Banda de Chico Buarque e Disparada de Geraldo Vandré, em 1966. Na verdade Disparada ganhou, mas o medo de uma briga feia pelos grupos de torcida, cada qual mais radical que o outro, colocou medo nos organizadores do festival de onde surgiu a idéia do empate.<br>Por isso a demora do anúncio do resultado final. Naquele mesmo ano de 1965, o futebol teve o televisionamento direto proibido. E, na falta do que se colocar no lugar, fizeram um contrato de experiência com Roberto Carlos e sua turma para um programa musical de jovens.<br>Foi um estouro, logo de início, e o programa ficou por anos aos domingos à tarde nos lares paulistanos. Ainda não havia interligação de emissoras em rede. Em outras praças ia o vídeoteipe. Quando aqui em São Paulo estava sendo apresentado um programa ao vivo, o teipe do domingo anterior estava sendo exibido em outros estados. A partir daí tudo mudou, o comportamento dos jovens, a rebeldia, as moças se expondo mais. O que era feito entre quatro paredes começou a aparecer em público, a liberdade sexual, que tinha como representante Leila Diniz, inclusive com a ousadia de ficar na praia de biquíni estando grávida. O mundo mudou ao ritmo da música.<br><br>e-mail do autor: [email protected]