Reminiscências da minha vida – o início de tudo

Hoje, às 7 horas da noite, estou comemorando 77 anos, 3 meses, 8 dias e 3 horas de vida, após 9 meses de gestação e resolvi registrar alguns fatos marcantes a partir do ano de 1901 quando tudo se iniciou. Sim, nesse ano chegaram ao porto de Santos, na cidade de São Paulo, alguns humildes imigrantes italianos contratados para trabalharem na lavoura, principalmente no cultivo do café, nas cidades do interior de São Paulo, Campinas e Valinhos.
Eu sou um dos frutos da união do casal Manuel e Fiorina, ele, filho de imigrantes portugueses, ela, filha de italianos. O matrimônio realizou-se na Catedral de Valinhos, no dia 5 de outubro de 1929. Ambos nasceram em Campinas, minha mãe no dia 14 de maio de 1912, meu pai no dia 5 de setembro de 1905.
Eu nasci na fazenda Tapera, no município de Valinhos, onde meus pais trabalhavam, no dia 6 de janeiro de 1931 (Festa dos Reis Magos ou Epifania). A parteira foi minha avó materna. Minha mãe estava debilitada, anêmica, não tinha ainda leite para nutrir-me. Eu nasci muito fraco, desnutrido e mirrado. O médico que cuidava dos pacientes nas fazendas próximas era de Campinas, seu nome: Dr. Penido Burnier. Esse médico, ao notar o estado em que se encontravam, mãe e filho, recomendou que eu fosse amamentado por uma filha de ex-escravos, ela morava nas proximidades, dera a luz na mesma época e tinha leite de sobra. Ao mesmo tempo, esse famoso médico sugeriu que seria bom que o meu batizado fosse providenciado o mais rápido possível, ele achava que eu não tinha muita chance de sobreviver por mais de uma semana, diante disso, meus avós paternos serviram de padrinhos e fui batizado na mesma catedral onde meus se casaram.
Graças a Deus, aos cuidados médicos e à ama de leite, consegui superar a fase critica. Algum tempo depois, meu avô materno foi o meu padrinho de crisma, na mesma catedral.
Nós conseguimos um pequeno mas aconchegante lar em Valinhos, na fazenda Botafogo. A felicidade começou ali, éramos três, mais um gato, um cachorro chamado Gavião e um galo (despertador). Meus pais continuaram trabalhando na lavoura, levavam-me junto com eles e o fiel pretinho e dócil cachorro. Apesar da tenra idade, gravei a imagem inesquecível: "meu pai forrava a carriola com uma boa camada de capim seco e com todo o cuidado e carinho, acomodava-me nela e transportava-me tal qual o mais precioso dos tesouros. Ao chegar ao destino, ainda bem acomodado, meu pai conversava com o cãozinho:
"Gavião, tome conta do meu menino! Entravam no meio do cafezal O meu fiel amigo ali permanecia ao meu lado, o tempo todo, até que eles voltassem para almoçarmos juntos.
Sempre, depois do jantar, meu pai apanhava um colchão de palhas, e, debaixo do mangueiral que lá existia no pequeno pomar, sob o luar e as estrelas, nos deitávamos. Para que eu adormecesse, apontava-me a lua e cada uma das estrelas, contava-me histórias. Meu Deus, quanta saudade! Ele era um lavrador semi-analfabeto, mas bem inteligente, grande conselheiro, sonhador, o mais velho e experiente de todos os seus irmãos.
Essa rotina continuou até o dia 8 de abril de 1933, com o nascimento da minha irmã Olívia. Ao contrário do que acontera comigo, minha mãe estava mais saudável, a Olívia era uma linda criança, robusta, olhos azuis profundos iguais aos do meu avô materno, era a imagem de um anjinho.
Alguns meses depois desse maravilhoso acontecimento, meus pais aconselhados por parentes e já cansados da roça, aceitaram o convite e nos mudamos para a capital de São Paulo. Fomos acolhidos por familiares que na época moravam no bairro do Bixiga. Ali nós encontramos os parentes de minha mãe, ou seja, os seus avós, pais, irmãos, tios e cunhados.
Meu pai, com ajuda dos familiares de minha mãe, conseguiu emprego, começou como aprendiz de raspador de assoalhos, limpeza e outros serviços inerentes ao acabamento de obras de casas e edifícios. Com o decorrer do tempo, devido à competência, esforço, dedicação e outros atributos, conquistou a confiança dos mais renomados engenheiros. Registrou-se como empreiteiro de obras prontas, associou-se a alguns irmãos, tios de minha mãe. Passou então a administrar e contratar a mão de obra. Começou a chover na nossa horta. Nossa vida começara a melhorar, o trabalho era pesado, mas compensador.

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