Histórias de office-boy

Trabalhava como office-boy em uma empresa na Rua Piratininga, a Distribuidora Carioca de Ferro e Aço de propriedade de dois cariocas, o senhor Loredo e o senhor Agostinho. Uma das coisas que mais gostava de fazer na empresa era sair para pagar duplicatas, pois além de boy, eu era notista e faturista, coisas a que não era muito chegado. As duplicatas eram de valores muito altos, por causa do tipo de mercadorias com que trabalhavam, ferro e aço, e eram pagas todas em dinheiro vivo. Quando saia para pagá-las, o senhor Loredo fazia todo tipo de conta até chegar ao troco, que deveria trazer de volta, feito isso pegava as duplicatas, dinheiro, punha tudo em uma pasta, e lá ia eu feliz da vida, fazer o que gostava. Primeiro distribuía todos os avisos de pagamentos das duplicatas nos bancos, em sua maioria nas Ruas 15 de Novembro e Boa Vista. Quando entregava o último aviso, voltava ao primeiro para ver se a duplicata já estava no caixa para começar a pagá-las. No dia que aconteceu esta história, o troco que deveria trazer de volta girava em torno de um ou dois cruzeiros, se bem me lembro.
E, como se fosse hoje me recordo, a duplicata mais pesada, última que paguei, por sinal, foi no Banco Holandês Unido, na Rua Boa Vista. Terminado o serviço de rua voltava para a empresa e entregava tudo ao senhor Loredo para conferência. Já estava sentado para começar meu trabalho interno, quando ele me chamou e perguntou-me que dinheiro era aquele ali na pasta, respondi que não sabia, e que tudo que levei estava lá dentro. Foi quando ele me mostrou que além do troco que deveria trazer havia ali 10.000,00 (deis mil cruzeiros), ou seja, 10 cabraizinhos. Depois de fazerem um monte de contas, chegaram à "difícil" conclusão de que algum pagamento eu fizera a menos, embora todas as duplicatas estivessem quitadas. Os sócios trocaram idéia entre eles e concluíram que não iriam ligar para ninguém, e sim esperar que alguém ligasse, pois senão aquele dinheiro seria de todos os bancos que passei, pois naquele tempo década de 50, diferença em caixa de banco era a coisa mais comum. Pois bem, no dia seguinte bem cedo tocou o telefone, era do Banco Holandês Unido, perguntando se a duplicata que fora paga errada não era da Distribuidora, pois estavam ligando para as empresas que haviam efetuado os pagamentos mais pesados no dia anterior.
O senhor Loredo, que atendeu ao telefone, confirmou que era, imaginei a alegria do caixa do outro lado, pois devia ganhar uns 1.500,00 por mês, já pensou ter que arcar com aquele prejuízo? Não demorou muito a pessoa chegou, depois de muita conversa fiada de honestidade pra cá, honestidade pra lá, foram os dois sócios e o rapaz do banco tomar cafézinho em um bar próximo. Depois despediram-se todos felizes, e para o boy não sobrou nem um obrigado, quanto mais uma Crush, naquela garrafa marrom toda ondulada e um sanduichinho de mortadela para acompanhar, pois estava na hora do lanche.
Mas tudo bem, o importante é que o caixa ficou feliz e eu também.

e-mail do autor: [email protected]