Em 1963 minha família resolveu mudar-se para São Paulo. Meu pai militar recém aposentado resolveu voltar às origens. Vínhamos de Bauru, e eu e meus irmãos também aprovamos a idéia já que pretendíamos continuar nossos estudos na capital. Mas vamos ao que interessa. Fomos morar no bairro de Perdizes, na Rua Homem de Melo, quase esquina com a Cardoso de Almeida. Adoramos o bairro. Condução farta para qualquer ponto da cidade, não sendo necessário o uso constante do carro próprio. Adorávamos andar de bonde, que subia e descia a Cardoso de Almeida, fazendo um barulhão danado. Pra subir era pelo esforço da tração e pra descer o esforço era dobrado já que descia freando e, é ai que começa nossa história. Durante o dia tínhamos bonde pra cidade de 30 em 30 minutos e, a partir da meia-noite de hora em hora. Éramos cinco em casa e não havia jeito. Até nos acostumarmos com o barulho os banheiros ou a sala de nossa casa era o ponto de encontro, pois todo mundo acordava com o barulhão do bonde, em especial quando ele descia. Com o tempo deixamos de notar a presença do barulho e dormíamos a noite inteira. Passados uns bons anos, não me recordo quantos, a experiência que acontecia devido ao barulho voltou a acontecer e o fenômeno ponto de encontro nos banheiros ou sala também, e permaneceu por um bom tempo, mas dessa vez era pela inexistência do barulho. A Companhia de Bondes havia encerrado suas atividades na capital paulista e passamos a sentir falta daquele gostoso barulho.
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