São Paulo do futuro que sonhei

Não sei porque nasci em São Paulo, este karma coletivo em forma de selva de asfalto e pedra. Talvez eu tenha desmatado muito em outras vidas. Talvez minha missão fosse vir aprender a melhorar a si e ao mundo.
São Paulo é o resumo do mundo.
Sou, com 50 anos de idade, do tempo que ainda se podia brincar na rua. Mas não me peça para louvar amores a São Paulo. São Paulo é uma escola. Foi aqui no meio do concreto que aprendi a amar a natureza (se tivesse nascido no mato talvez odiasse). Foi aqui que aprendi a gostar de cultura, visitando as seções grátis de cinema no MASP na minha adolescência e indo de consulado em consulado na Avenida Paulista para pegar livros e folhetos grátis para minhas "pesquisas" sobre os países do mundo.
Foi aqui que nasci, estudei, trabalhei, trabalhei, deixei de estudar para trabalhar, deixando o sonho de ser jornalista para me formar observador e crítico do mundo, do Brasil e mais ainda de São Paulo.
Trabalho com livros, livros velhos, um vírus possível somente nas grandes cidades, onde se mata por um tênis – onde se vive pela revista que vai sair, ou por um possível encontro com alguém ou consigo mesmo.
Amo São Paulo pelo que ela ainda não é, mais pelo que pode ser – uma revolução de tudo, talvez mudanças radicais.
Como posso amar uma cidade que me faz ficar parado no trânsito uma hora para dar uma volta no quarteirão? Ainda assim sem espaço, posso sonhar o espaço para todos que São Paulo é: poluída e contra a poluição, o mar de gente que vai limpar o próprio chão. Ah, sim, também se ama um pai ou filho doente!
São Paulo é futuro: grandes viadutos nas alturas e embaixo uma nova civilização, cobaia do mundo! Um dia suas árvores, riachos e pureza
nascerão novamente. Por quê? Porque só uma cidade como essa pode ter a força para mudanças que a qualidade de vida futura e necessária vai solicitar. Direito à vida.
E aí então os novos paulistas do mundo inteiro serão felizes cidadãos a passear na sua garoa.

e-mail do autor: [email protected]