O Edifício Savoy

Hoje, quem passa na avenida Paulista observa na esquina com a alameda Joaquim Eugênio de Lima o edifício Savoy, com suas janelas de vidro dourado espelhado. Poucos talvez saibam – ou ainda se lembrem – que aquele prédio já foi residencial, dividido em três blocos de apartamentos que abrigaram famílias por mais de 25 anos.

Eu nasci na Pro-Matre Paulista, prédio vizinho, em 06 de janeiro de 1972 e posso dizer que minha primeira casa foi o apartamento no. 33 do 9o. andar do edifício Lawisa que, na época, correspondia ao bloco central do prédio e que atualmente é ocupado por um escritório de advocacia.

Minha mãe contava que foi um dos primeiros edifícios da avenida Paulista e das janelas do apartamento avistava-se até o Morumbi, sem obstáculos à frente. Nos anos 60, o famoso estilista Denner montou seu atelier no andar térreo, na esquina da avenida. Hoje, está ali o MacDonald's!

No apartamento 33 moraram meus avós paternos Hilda Hahnemann e Isaac Lippel, do ano de 1954 (ou 1956…) até o mês de novembro de 1979. Foram uns dos primeiros moradores do recém entregue edifício, propriedade de uma família abastada da cidade. Curioso o fato do bloco da esquina da Paulista ser de apartamentos duplex, o que deveria ser um luxo para a época. Ainda é possível para que passa na avenida visualizar à noite as escadas entre os andares, quando as luzes internas se ascendem.

Eu vivi a fase decadente do edifício como residencial. Me lembro quando criança de seu ar sombrio, do cheiro de mofo dos elevadores revestidos de madeira; também dos vitrais de pássaros que ornamentavam a entrada do bloco central. Havia uma piscina rodeada de uma pérgula, nos fundos, que deu lugar a um piso de garagem após a reforma.
Lembro-me, também, do "seo" Otacílio, zelador do prédio, o qual meus pais e avós consideravam como amigo. Ele veio da Bahia no final dos anos 40 e trabalhou na construção. Terminada a obra, permaneceu como zelador.

Em 1978 os proprietários venderam o prédio grupo Savoy. Os inquilinos tiveram que se mudar para que os apartamentos se tornassem escritórios. Meus avós foram os últimos a fazer a mudança e lembro-me com uma certa tristeza da saída…

Mas o Otacílio continuou no prédio! Trabalha lá até hoje como zelador. Mais de 50 anos vividos entre aquelas paredes.

Outra lembrança que tenho dessa época era a de um casarão também na esquina da Paulista com Eugênio de Lima que eu via da janela da sala da minha avó. Esse casarão tinha uma pequena torre, uma espécie de mirante; era branca e rodeada de jardins. Em 1982 ela foi demolida mas houve resistência de um grupo preservacionista que abraçou a construção na tentativa de evitar a demolição. Em vão: restam hoje apenas as grades e os portões… e o terreno deu lugar a um estacionamento… Anos mais tarde o mesmo ocorreu com casa dos Matarazzo. E espero que o mesmo não ocorra com a Casa das Rosas, o casarão do MacDonald's, a casa 1919, a do Bank Boston e uma outra, de estilo moderno, entre a rua Pamplona e a alameda Casa Branca.

Acho que já há prédios demais na Paulista. E pouca coisa para se lembrar… Que tal alguém ir até o Savoy e pedir para o "seo" Otacílio contar a sua história… e parte da história da avenida mais emblemática de São Paulo?