Trem é fascinante. Em geral, as pessoas deles gostam. Das marias-fumaças de há 100 anos aos TGVs do presente e do futuro. Ferrovia, em qualquer paisagem e em qualquer lugar da história, tem componente poético.
Quando eu era moleque, anos 50, mal saía dos limites de Vila Mariana. Porém, vez por outra, percorria algum pedaço da Paulicéia. Acompanhando minha mãe, que ia comprar roupa para revender, comprar na José Paulino ou na Oriente. Ou quando ia à casa de parentes. Quando à Rua Oriente, era certo cruzar com trens: no Brás.
Tomando um bonde na Praça Clóvis (7 – Penha; 24 – Belém; 26 – Parque São Jorge) eu já ficava fascinado por aquele horizonte fabril, possível de se avistar da própria Praça: chaminés em profusão! Cruzávamos a linha férrea através do "orgulho" de Adhemar de Barros, o belo Viaduto do Gasômetro. As folclóricas "porteiras do Brás", porém, ainda estavam em atividade. Porteiras daquelas de abrir e fechar. Não havia ainda o outro viaduto. Tive, também, oportunidade de cruzar a linha, a pé – e de me debruçar nas porteiras, encantado com os trens. Em Vila Mariana, não havia trens: trilhos, sim – de bonde. Minha mãe me relatava atropelamentos, lá no Brás. Pedestres afobados e incautos. Sempre fora assim. Não só no Brás, mas no mundo.
Já quando o destino era a José Paulino, de trilhos mesmo, só os dos bondes, também. Peguei a fase final deles naquela Rua: uma Jerusalém ou Tel-Aviv paulistana, à época, não? "Shalom"! Mas do começo da Rua avistavam-se composições da "Santos-Jundiaí", num grande pátio. Locomotivas, carros de passageiros, vagões-tanques… Inclusive aquele lindo trem inglês – todo marrom – a diesel, acho que quatro carros. Ia para Santos (muitos lembrarão, viagem espetacular, que desperta saudade, não?): chamava-se "Cometa", creio.
Por curioso, em termos de "memória" do transporte, é até interessante relembrar uma odisséia. Uma viagem ou outra que fiz, anos 60, para o interior. Tinha uns 10, 12 anos.
A composição era de carros azuis – lindões, espaçosos. Orgulhosamente, neles a inscrição: "PAULISTA" (primeira e segunda classes). Da inesquecível "Companhia Paulista de Estradas de Ferro"! Saíam da Luz, eram tracionados por máquina elétrica da Santos-Jundiaí: inglesa, vermelhona, com lista amarela – lembram? Até Jundiaí. Onde mudava a locomotiva. Para outra, também elétrica, azulzona – um aviãozão sua aerodinâmica. GE americana, colossalmente bela. Importada nos anos 40, manteve-se "moderna" por uns 40 anos, ainda. Mesmo a FEPASA a descaracterizando. Lá em Araraquara – cidade linda, limpa e tranqüila -, um alerta: "Baldeação!". Mudava tudo. Trocávamos de carro e – de novo! – trocava-se a máquina. Agora, possante diesel-elétrica GM. Que Jânio Quadros ou Carvalho Pinto (não lembro com exatidão) comprara. O trilho é de domínio da E. F. Araraquara, que o povo chamava de "Araraquarense". Lembra, alguém? Tudo isso, ainda uma viagem só! Curiosidade, para mim: Araraquara tinha ônibus elétrico – implantado em 1959. À época, só São Paulo e Belo Horizonte tinham trólebus. Em Araraquara, eram exclusividade: só eles.
Mas meu destino era uma estaçãozinha bucólica, adiante de São José do Rio Preto: "Engenheiro Balduíno". Região que, nos anos 20, era sertão. Final da jornada: umas 12 horas depois (ou mais), desde a Luz! Que hoje os ônibus cobrem em 6 ou 7 horas, no máximo. Mas era deslumbrante, o trem!
Como não lembrar – eu – nos anos 60, os trens de subúrbio, que vim a conhecer, trabalhando na rua? Aos 13 anos. Lembro, muito bem, dos carros azuis (de dois tons) da "Central do Brasil". Partiam da Roosevelt – que muitos ainda chamavam de "Estação do Norte". Ao lado da Estação do Brás, da E. F. S. J. (ex-São Paulo Railway, não?). Central e Santos-Jundiaí, federais. Como a Noroeste (de Bauru). Havia, ainda, composições suburbanas da Central que eram originárias da Inglaterra: "Metro-Camel", dizia a plaquinha na parede do carro. Fabricante tradicional. E também carros nacionais, como os "Santa Matilde". Estes, de segunda mão, trasladados dos subúrbios do Rio. Onde a Central também operava. Trazê-los do Rio – onde também necessários – era como descobrir um santo para cobrir outro… Lembro que tinham anúncios publicitários ("propagandas") com endereços de bairros como Méier, Madureira, Casca dura, Irajá… Esqueceram de remover.
Porteiras. Quantas, na urbe paulistana, nos anos 60, restavam… As da Rua Capitão Pacheco e Chaves. Onde o Ipiranga "caminha" para encontrar a Vila Prudente. Perto da Ford, de instalações colossais. Referência na região. Donde por quase meio século brotaram caminhões, que transportaram o progresso nacional.
Antes de o enorme e belo viaduto ali ser erguido – Prestes Maia, se não me engano – o bondinho aberto 32 – Vila Prudente cruzava os trilhos do trem. Estação Ipiranga, E. F. S. J. Raras vezes tomei esse bondinho. Que parava no "largo de Vila Prudente"- linha singular. Eu torcia para as porteiras fecharem: era a chance de ver o trem. Pois – reafirmo – Vila Mariana não tinha trens. Só houve aquele para Santo Amaro, anos 20. Próximas às porteiras, infalíveis, sempre aquelas casinhas de tijolinhos vermelhos. Algumas com o nome da estação. Pessoal operacional.
E na Avenida Santa Marina, então? A poucos metros uma da outra, duas linhas, paralelas: "Sorocabana" (hoje transposta por passarela de pedestres) e a "ex-inglesa", E. F. S. J. (estação Água Branca). A "porteira" desta não era propriamente porteira: era cancela. As da Santos-Jundiaí eram todas assim: de subir e descer, ângulo de 90 graus, tocando um "din-din-din" e acendendo luzinhas vermelhas. Lá, na Água Branca, deve estar assim ainda: não passo por lá há anos. Em 1961, por aí, ocorreu no Ibirapuera um evento, "Feira Internacional de Material Ferroviário" – FIMAFE. Locomotivas, carros, equipamentos etc. Lá que eu vi, pela primeira vez, aquela tal de cancela. Constava ser, à época, importada. Da Argentina. "Tranqüilo"!
Todas as estaçõezinhas do "Tramway da Cantareira" tinham porteiras. De correr. Acionadas por guarda-cancela. Nos dois ramais. Jornais antigos (fatos que não presenciei) mostram – anos 30, 40 – o trem "dando uma mordida" em um bonde (Voluntários da Pátria) ou em carros e ônibus (Cruzeiro do Sul, Ataliba Leonel): como não prever a maria-fumaça chegando? De presença mais anunciada, impossível, não?
Porteiras e cancelas em três ferrovias "paulistanas": Sorocabana, Santos-Jundiaí e Central. Na Lapa, Barra Funda, em Jaraguá, Perus; no Belém, na Guaiaúna, Vila Matilde, Itaquera, em Guaianazes; na Vila Leopoldina, em Osasco (ainda bairro); Parada Vemag, Mooca… Enfim, os viadutos erradicaram porteiras e cancelas.
O trem de subúrbio – dizem técnicos e autoridades "de trens" – vai se incorporar ao Metrô: desde há 30 anos, reinando soberanamente nos trilhos urbanos da Paulicéia. Embora os trens de subúrbio ("trens metropolitanos") sejam igualmente fundamentais. Uma ou outra porteira – ou cancela – que ainda subsiste, haverá de se render ao progresso. Sucumbirá sob algum viaduto. Assim como o viaduto subjuga a porteira – ou a cancela – o moderníssimo Metrô – uivando no túnel – sufoca (minhas) lembranças daqueles velhos trens. Que teimam em rolar nos trilhos da memória paulistana…
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