Volto hoje a escrever mais um pouquinho sobre a minha vivência com a população indígena com que tive contato. Insisto, no entanto, que tratei apenas do tema Educação, que era o que me competia como trabalho da Secretaria de Estado da Educação, portanto com pouca possibilidade de envolver-me com outros problemas. Quem não gostaria de ter o poder de resolvê-los?
Após estabelecidas as primeiras diretrizes de ação daquele grupo, sempre e em cada reunião com a participação de índios das várias Aldeias – eles eram sempre trazidos e acompanhados pelo representante da FUNAI – decidiu-se que para fazer o diagnóstico da situação em que as coisas se encontravam, além de documentação que nos foi trazida pelos antropólogos, do levantamento de toda a legislação que trata do assunto e de algumas informações dadas pelos próprios representantes indígenas, uma pequena equipe de educadores da Secretaria da Educação, faria visitas a algumas Aldeias para a verificação do estágio em que se encontrava a inserção das crianças nas escolas. Entramos em contato com as Diretorias de Ensino (antigas Delegacias de Ensino) que, conforme nosso mapeamento possuíam indígenas em sua área de atuação e começamos a marcar algumas visitas. A primeira delas foi a Aldeia Aguapéu, em Mongaguá, onde existe também a Aldeia Itaoca.
Após os primeiros contatos com o Dirigente Regional, pedimos que ele nos acompanhasse porque é via Diretoria de Ensino que se implementam os diversos Projetos Pedagógicos e queríamos que ele realmente se envolvesse. Só quero lembrar que estes são cargos de confiança e quando muda o governo mudam também os Dirigentes.
A equipe era composta de 3 educadores da SE, entre os quais eu me incluía, mais o Dirigente e uma quinta pessoa que sabia como chegar a Aldeia, onde, conforme dados em documentos, haveria aproximadamente 90 a 95 pessoas.
Fomos em um carro oficial da SE e combinamos que todos nós levaríamos nosso próprio lanche e água. Neste lugar tivemos nossa primeira surpresa do dia! Encontramos uma pequena escola, abandonada, com placa da Secretaria da Educação e invadida por uma pessoa que se dizia artista. O governo continuava pagando luz e demais encargos e o Dirigente não sabia disso.
Fomos subindo o morro, o que levou aproximadamente duas horas e descortinando uma mata, uma vegetação e um panorama maravilhoso, como só e acontecer em nosso Brasil. O Guia que nos acompanhava disse que precisávamos esperar um pouco porque ele precisaria buscar uma pessoa e a autorização para entrarmos na Aldeia. Após algum tempo ele chegou com um casal de evangélicos que se diziam responsáveis pela Aldeia. Estranhamos, mas continuamos subindo e ao chegar à Aldeia, outra surpresa. Havia uma grande placa informando o nome da Aldeia e que ali era uma reserva onde só se podia entrar com a autorização da FUNAI!!! Questionei então o casal e perguntei como era dada a autorização para que eles passassem a se responsabilizar pela Aldeia. Informaram que não havia nenhuma autorização legal mas como a FUNAI nada fazia pelos índios eles passaram a tomar conta deles evangelizando-os, levando-os a médico,não deixando passar fome e provendo até ambulância para casos graves. Assim, fomos autorizados e acompanhados por religiosos na visitação. Pode? É isto, quando o Estado se ausenta ocorrem os problemas na segurança, nos desmatamentos e tantos outros. Alguém ocupa seu lugar!
Acho que vocês devem estar pensando o mesmo que nós naquele momento: esta é uma das formas como o índio perde seu Deus, sua história, sua cultura e a vontade de lutar. Sim, porque o que encontramos foi uma gente triste e apática.
Dos aproximadamente 90 índios que esperávamos, encontramos talvez uns 30, se muito. Perguntamos onde estavam os demais e aí tivemos uma primeira informação muito significativa para o nosso trabalho. A Nação Guarani é andeja, isto é, deslocam-se constantemente de uma Aldeia para a outra. Deslocam-se com a família toda e caminham quilômetros até uma outra Aldeia, que pode ser na mesma ou em outra região.
Perguntamos sobre a escola que haviamos visto no pé do morro e fomos informados que originalmente ela se destinara às crianças da Aldeia e o governo provinha uma professora. Devido as características Guarani, dos constantes deslocamentos, a escola ficava com duas ou três crianças, às vezes com 20 e às vezes sem nenhuma. Assim, o governo retirou a professora e a escola foi fechada. As poucas crianças que a freqüentavam o faziam em uma escola comum, longe da Aldeia e por isso faltavam muito, principalmente quando chovia e o lamaçal dificultava a caminhada. Disseram também que eram discriminadas. Visitamos a escola e estas informações nos foram confirmadas. A tudo isto ainda permeava o problema da língua.
Conversamos bastante com as pessoas da Aldeia e não tivemos coragem de comer nosso lanche. Minhas colegas o repartiram com as crianças e eu fui a uma maloca onde ficavam os idosos e idosas, que a tudo assistiam e olhavam gulosamente as crianças comendo e distribui o meu lá. Nos despedimos e agradecemos a amável acolhida e íamos iniciando nosso caminho de volta quando a senhora evangélica que nos acompanhava disse-me que eu estava sendo chamada. Voltei-me e vi duas idosas colocando no no chão da Aldeia um cacho de bananas ouro, como presente para mim. Agradeci com um sorriso e um aceno de cabeça, ao que elas me responderam.
Creio que nunca mais em minha vida sentirei uma emoção tão forte como aquela! Foi um ato de amor? De agradecimento? De troca? Ou de demonstração de grande dignidade? Apesar de nossa situação, ainda podemos repartir!
Começamos a descer o morro ainda um pouco silenciosos e surpresos. Ofereci banana a todos e descemos comendo-as porque também estávamos com muita fome.
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