Estávamos no ano de 1966, quando o radialista Nilton Miranda, meu colega de bandeirantes, ele trabalhando na discoteca e sendo também produtor do programa repórter sucesso, apresentado por Kalil Filho com locução comercial de Odair Baptista. Trabalhava também na rádio América, nos estúdios do Morumbi, ao lado do estúdio da própria Bandeirantes, já que naquela época ambas faziam parte do mesmo grupo.<br>Nilton Miranda, um cara muito criativo, estava aproveitando a onda de sucesso da jovem guarda que fervia naquele ano. Ele que além de produtor apresentava o programa América A Go Go, resolveu então, fazer no dia 19 de Abril, daquele ano, uma festa de aniversario do rei da Jovem Guarda, Roberto Carlos.<br>A festa foi programada para o Cine Universo, no bairro do Brás. Um festão!<br>Penso que foi dali que Erasmo Carlos tirou a letra da Festa de Arromba, que ele gravou com enorme sucesso. Os participantes do movimento Jovem Guarda estavam todos ali presentes, pois um produtor de programas de rádio tem os endereços de todos. Mesmo porque, mesmo não tendo o boca a boca, vai informando que em tal lugar terá uma festa… Deno e Dino, Lenon e Lílian, Martinha, Silvinha e seu futuro marido, o goiabão, Eduardo Araújo, os Vips, Renato e seus Blue Caps, Roni Cordi e seu pai Ervet Cordovil, também o Babolina. Jorge Ben e Roberto, Erasmo e Vanderléia lá estavam.<br>Mas não se esperava ver o quanto de artistas estavam à disposição dos promotores, pois além dos artistas jovens estavam também artistas cantores(as) que estavam fora do procênio (dos holofotes). Os que antes eram artistas de primeira linha estavam ali fazendo o prólogo de uma festa jovem e barulhenta como era o movimento musical em questão. Ângela Maria, Caubi Peixoto, Nelson Gonçalves, Agnaldo Rayol e muitos outros que se apresentavam, sem falar em cachê. Era a exposição do momento, e estavam aproveitando parte naquele momento festivo, já que o esquecimento era muito natural, quando surge algo novo. Como aconteceu com a bossa nova em relação ao samba tradicional, no crepúsculo dos anos 1950, quando os conjuntos musicais com vários componentes (violão, cuíca, pandeiro e vários metais) foram substituídos por piano, baixo e bateria.<br>O Cine Universo, o maior do Brasil, era pequeno para a multidão que se comprimia dentre os que já estavam dentro e muito mais os que estavam fora. Foi uma coisa de louco.<br>Por ali estava o senhor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que ficou abismado com toda a movimentação que estava acontecendo no velho e querido bairro do Brás. Não se contendo perguntou: quem esta promovendo essa festa gigantesca?<br>Foi lhe dito: um rapaz da radio América, Nilton Miranda, que está realizando uma festa de aniversario para o Roberto Carlos.<br>Boni quis conhecer o tal Nilton Miranda.<br>Quando estavam frente a frente, Boni foi logo dizendo: então você é quem proveu aquela festança no Brás? Depois da resposta afirmativa, Boni foi direto ao assunto: você é o cara que eu preciso. Trabalho na TV Globo e quero te levar ao Rio, você será meu assessor direto.<br>Miranda ficou de pensar no assunto e dar a resposta posteriormente. <br>Na bandeirantes ele consultou o diretor artístico da rádio, Clodoaldo José, que disse a Miranda: se aceitar esse convite, vai fazer a maior besteira da sua vida, esse cara é um louco. Não para em emissora nenhuma. <br>Boni já tinha trabalhado em todas as emissoras de televisão. Ele foi o criador de todos os símbolos das TVs, O indiozinho da Tupi, os bonequinhos da TV Excelsior. O leãozinho da Record. Enfim, um cara calejado no metier.<br>Miranda optou por não ir. E depois que viu como ficou a TV Globo e o sucesso enorme que ela adquiriu, sendo a líder inconteste de audiência, veio o arrependimento.<br>Uma pena, porque Nilton Miranda enriqueceria ainda mais os trabalhos da emissora do jardim botânico carioca.<br><br>e-mail do autor: [email protected]