Paulistana de carteirinha

Eu, como primogênita de uma família que mistura mineiros e pessoas do interior paulista, tive meu nascimento muito festejado, "coisas de província".
Constava assim na minha participação de nascimento:

Milton Geraldo de Freitas Santos e Alice Piedade Santos
Participam o nascimento de sua filhinha Suely
Páteo do Colégio, 1 – 2º and.

Um dos meus maiores orgulhos foi morar num endereço histórico e ser, portanto, 100% paulistana, "paulistana de carteirinha".

A família Nequinha, apelido de meu avô materno, veio de Minas para São Paulo nos idos de 1940, tendo vivido na Rua Machado de Assis, Vila Mariana, e depois neste prédio no Páteo do Colégio.
Na casa, no 2º andar, funcionava também a pensão da minha avó e antes do meu avô, falecido então, tinha tido sua pastelaria.
Pensionista da Sá Sefa, meu pai Milton Geraldo, amparense, conheceu a mineira Alice, casaram-se e aí eu nasci.
Nos anos 50 passei minha infância nesse endereço com meus pais, avó e tios.
A esquina hoje, 2007, está com outro aspecto, afinal meio século é passado, mesmo que eu nem tenha sentido.
Voltar ali mexeu comigo. Senti afinal que o tempo passou e deixou suas marcas.
A casa, para mim monumental, está "embalada" para reforma, quem sabe que reforma, por uma empreiteira qualquer…
Espero que sejam preservadas sua classe e austeridade, pois dentro de mim tudo que se refere a ela está preservado.
Também apresento no espelho as marcas cruéis do tempo, mas não farei nenhuma modificação, já a casa, só o tempo vai dizer que novo aspecto terá.
Soube por meu tio Milton que a pastelaria fornecia pastéis de carne, queijo ou palmito, para quase todos os bares nas imediações da Praça da Sé, Largo de São Bento e Largo São Francisco, inclusive para o Mercado Municipal, fruto de muito esforço e resistência, pois como na atualidade, meu avô teve que enfrentar a ganância e o ataque de gente inescrupulosa e desonesta.
Essa história merece ser contada.
Meu avô veio de Minas Gerais com a filha mais velha, Maria, e um dos filhos homens, João. Soube que eles inicialmente moraram no sótão do prédio do Pateo do Colégio.
Naquela época o prédio era muito bem conservado e muito limpo. Minha tia Maria passara a dar aulas numa Escola de Armênios e meu tio João a ajudar meu avô. No primeiro andar do prédio residia o Diretor das Casas Pernambucanas.
Depois de estabelecido, meu avô mandou vir para São Paulo a esposa e o restante da família de 11 filhos. Estes viajaram para São Paulo de trem de Varginha até Cruzeiro.
Meu avô os esperava em Cruzeiro para fazer a baldeação para o trem para São Paulo. De Varginha para Cruzeiro, minha avó havia enchido uma lata de óleo, daquelas de 18 litros, com frango, farofa e tudo mais. Meu tio conta que no reencontro em Cruzeiro ainda restava um frango e farofa, que meu avô tratou de comer ali mesmo, justificando a fama de guloso.
Com a vinda da família, meu avô alugou uma casa na Vila Mariana. Esta ficava defronte à casa dos Guimarães, donos do Café da Sé, que ficava no térreo do prédio do Pateo do Colégio. Essa família também tinha outro bar chamado Café São Paulo, que ficava a uns 50 metros do Café da Sé. Neste Café São Paulo meu avô trabalhou numa estufa, vendendo pastéis, empadinhas, coxinhas e cuscuz.
O velho Guimarães era compadre do meu avô e o considerava muito, diferentemente dos seus filhos, que não tiveram a mesma consideração com ele após o falecimento do patriarca.
Mais tarde meu avô ficou sócio do português dono da Pastelaria. Um tempo depois ele comprou a parte do português, tornando-se o único dono.
No Congresso Eucarístico Nacional de 1942, realizado no Vale do Anhangabaú, a pastelaria vendeu pastéis como nunca, com um lucro fantástico naquela semana.
Naquela época, o pastel de carne e o de palmito tinham azeitona dentro, lembra meu tio, os diferenciando dos nossos conhecidos pastéis de vento..
O palmito, o queijo e a carne eram comprados diariamente no Mercado Municipal e preparados por minha avó e uma filha de criação, Geralda.
A massa era feita por um português, quem sabe Manuel ou Joaquim, já que meu tio não se recorda do nome. Há um detalhe importante que ele lembra bem e conta enfático: "Não tínhamos máquinas, era tudo preparado no braço".
Ele também se recorda da minha tia Maria dizendo que a pastelaria vendia cerca de 14.000 pastéis por dia ao custo de 200 réis cada, o mesmo preço da passagem do bonde!
Há mais personagens interessantes neste capítulo de sucesso: o incansável e trambiqueiro fritador dos pastéis, que segundo meu tio era um moreno, cujo nome ele também não se recorda, e um "mascate" que merece ser conhecido, embora tenha feito das suas acobertando o tal fritador. Eis o relato do meu tio: "O fritador ligava o tacho (mais de um metro de diâmetro) com óleo às 4 da manhã, porque a fritura começava às 5 e meia, para cumprir a entrega no Mercado Municipal era às 6 da manhã. O tacho só era desligado às 4 da tarde, usava-se gás de rua. Muitas vezes eu realizei essas entregas. Os trabalhadores e funcionários do Mercado ficavam aguardando a chegada dos pastéis para tomar o café da manhã”.
Em cada cesta de pastel cabia 50 unidades. Que eu me lembre, eu levava, a pé, 4 cestas, 2 em cada braço. Outra entrega bem cedo (7 da manhã) era no Edifício Arcadas, ou Arcades, que ficava perto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
Nós tínhamos dois tipos de clientes: os bares e os "mascates", que eram vendedores ambulantes de pastéis. Eles vendiam nas praças e nas feiras. Mas, para caber mais pastéis na cesta, eles pediam que os pastéis fossem menores, com menos ingredientes e sem azeitona, pois assim cabiam mais pastéis e ficava mais leve.
O "mascate" ia buscar os pastéis lá na pastelaria.
Na saída, o fritador gritava para a Maria “300 pastéis” e a Maria cobrava do mascate.
O português que fazia as massas era muito observador. Um dia ele disse para a Maria que alguma coisa não estava certa, pois ele fazia, vamos dizer, 1000 pastéis especiais para "mascates", mas pela contagem dele, a quantidade gritada pelo fritador não batia. Ele fazia muito mais pastéis do que era dito na saída, mas não sobrava nenhum pastel na prateleira.
Uma manhã, Maria fez o teste: o fritador gritou 300 pastéis. A Maria disse para o mascate: “vamos conferir”. Tinham 500 pastéis na cesta!
O Pai despediu o fritador, pois ele recebia por fora do "mascate".
Quem assumiu o lugar de fritador foi o Alfredo Piedade, filho do Tio Tonico.
Bem mais tarde, o Alfredo tornou-se Diretor de Vendas das Indústrias Matarazzo, na área têxtil.
Pela narrativa dá para perceber que a pastelaria dava muito lucro, mas teve de fechar porque além de ser prejudicada por colaboradores suspeitos como o mascate já conhecido, meu avô não quis contribuir com a "caixinha do Ademar de Barros", que era o Interventor na época.
"Ademar foi um político que assumiu o slogan "rouba, mas faz" e a "caixinha", em uma marchinha de propaganda eleitoral que dizia: Quem não conhece?/ Quem nunca ouviu falar?/ Na famosa caixinha do Ademar?/ Que deu livros, deu remédios, deu estradas/Caixinha abençoada".
Mas nada de divagação, voltemos à estória, lembrando que eles estavam sob a ditadura de Getúlio Vargas, portanto não havia Governador e sim Interventor em São Paulo, nomeado pelo Presidente. Mesmo sem a Pastelaria a família continuou no endereço, sendo que a pensão da minha avó só começou depois que meu avô faleceu. Antes ele ainda comprou um restaurante no Brás que funcionou um ou dois anos apenas devido à manutenção da perseguição dos "fiscais", uma vez que meu avô não admitia ter que contribuir para a "caixinha do Ademar".
Fechado o restaurante, meu avô foi ser administrador da Fazenda dos Guimarães, em Itú.
Trabalhou lá até morrer.

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