Rosa estudava na minha classe na segunda série do ginásio. Tinha um corpo desengonçado, pernas muito compridas, um jeito calado que convidava chacotas. As aulas de Educação física eram os piores momentos para a Rosa, pois vestida de shorts bufantes, tentando fazer os movimentos da ginástica e lidar com pernas e braços longos demais, ela era a vítima das risadas das outras meninas que faziam questão de tornar os dias escolares da Rosa num suplício.
Eu estava no meio delas.
Uma vez durante a visita dos pais á escola conhecemos a mãe da Rosa e ainda me lembro do orgulho com que ela falava sobre a filha dela para as outras mães sentadas ao lado. Lembro-me de ter pensado com um sentimento de vergonha “a mãe da Rosa não sabe o que ela está passando aqui na escola”.
No fim do ano a Rosa foi transferida e nunca mais a vi, até que um dia entrando em uma loja no Bom Retiro, uma loja de enfeites de muito bom gosto, eis que vejo a Rosa arrumando a vitrine. Uma Rosa muito diferente.
Era uma mulher alta e bonita, braços e pernas proporcionais, cabelos escuros emoldurando um rosto sorridente e confiante. Me disse ser a dona da loja , me reconheceu e me deu um abraço. Até um cafezinho me serviu. Eu queria pedir desculpas pela menina de treze anos que rira dela na escola, que nunca demonstrara nenhuma compaixão ou amizade, mas a palavras me faltaram. A mulher que eu me tornara, moldada pelo sofrimento, pela maternidade, pela vida, enfim, queria desfazer o que fora feito anos atrás, mas era tarde demais.
Só consegui dizer “que bom ver você de novo, Rosa”.
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