A Banda do Minguinho

No início dos anos 1960, o Palmeiras e o Santos eram os bambambams do futebol. Mais o Santos que de 1955 até 1969, ganhou 14 campeonatos paulistas. E que maravilhou o Brasil e o mundo, tinha o Palmeiras como seu calcanhar de Aquiles. Em 1959, quando o santos estava para ser bi campeão paulista, lá estava o desmancha-prazeres palmeiras. Com belo time e um grande técnico Osvaldo Brandão, que tinha a estrela na testa, fez com que o palmeiras e o santos chegassem empatados em primeiro lugar naquele 1959. Então o título foi disputado em três partidas extras. Isso já no início de Janeiro de 1960. 1×1 no primeiro jogo. 2×2 no segundo, e ficou toda a expectativa para o terceiro, no dia 10 de janeiro de 1960.<br>Fui ao Pacaembu junto com uns amigos que trabalhavam na Rádio Pan Americana, portanto fiquei nas cadeiras numeradas, gratuitamente. <br>Eis que quando vejo senta-se a meu lado o artista Mazzaropi, acompanhado por uma senhora loira. Por mais que se perguntasse, Mazzaropi não dizia que era palmeirense, mas com aquele nome, Amacio Mazzaropi, não dava para duvidar que ele era. Só sei que ao final o Palmeiras ganhou de 2×1, com gols de Julinho e Romeiro de falta. Saímos do estádio cantando. Com Jair, com Pagão o palmeiras é campeão.<br>Mas o que começou a chamar a atenção dos torcedores foi a bandinha do palmeiras, com umas seis ou sete pessoas com a camisa alviverde tocando na geral do Pacaembu, ou Parque Antártica.<br>A cada jogo percebia-se que aumentava o número de músicos nos metais.<br>Aí ficamos sabendo que era a bandinha do Minguinho (Domingos Ianacone) um conselheiro que mais tarde virou diretor de futebol. Era ele quem financiava a banda, comprando os aparelhos musicais, por isso é que era a banda do Minguinho. E ela foi ficando algo que fazia parte do espetáculo, o que causava inveja a muitos torcedores de outros clubes. Em termos de música, o mais que se via nos estádios era gente batendo bumbo. Instrumentos iguais aqueles da banda ainda não se tinha visto. Em 1963, quando outra vez o Palmeiras tirava o título de tetra do Santos, a bandinha do Minguinho dava seu show à parte, na geral tinha um reservado com cordas que era para a banda se localizar. Ela entrava no estádio pouco antes dos times entrarem em campo, com o estádio já lotado, e sob os aplausos da torcida. Naquela época os estádios ficavam cheios. Quando se via lá estava a banda entrando pelo portão monumental do estádio com os primeiros acordes de “Meu periquitinho verde…” sob os aplausos da torcida, e eles iam subindo os degraus da geral sem parar de tocar. Engraçado é que quando eles davam uma parada durante o jogo, a torcida pedia para que eles voltassem a tocar, pois achavam que o time estava precisando dos acordes. Parecia que o time às vezes dormia em campo, e o maior dorminhoco para a torcida era Servilio de Jesus, um cara muito tranqüilo, apesar de ter Tupãzinho, Julinho e Gildo, que estavam sempre acesos no jogo.<br>Quando descíamos a Rua Itápolis no final da Avenida Paulista, já se ouvia o burburinho da torcida mostrando que o estádio já estava cheio. Isso às 19 horas, duas horas antes de o jogo começar, isso porque a torcida ia para ver a preliminar que tinha o expressinho do palmeiras (aspirantes). Também campão dos aspirantes. Naquele tempo os jogos noturnos começavam às 21 horas em ponto. Naquele 1963, a maior satisfação foi o antepenúltimo jogo, Palmeiras 5×2 contra o Corinthians, ai já falávamos, nem precisa ser campeão. “Gente, nem precisa ver as duas partidas finais.” Tinha gente que já se tinha dado como satisfeito, e não ia mais naquele ano assistir jogos do Palmeiras, já estava com a alma lavada.<br>Mas na semana seguinte voltávamos ao Pacaembu para ver Palmeiras e Noroeste, primeiro tempo 0x0, e Gildo chutou um pênalti na trave, mas no final, 3×0 foi o resultado que deu ao palmeiras por antecipação de uma rodada o título de campeão paulista de 1963. Lances bonitos a gente via naquele tempo. Como em uma vez em que Ademir da Guia chutou uma bola na trave, e quando ela voltou para ele, matou no peito e encheu o pé, fazendo com que ela batesse novamente na trave.<br>Quando o jogo terminou queríamos pular o alambrado para comemorar dentro do campo. Houve um cerco da Polícia Militar impedindo a invasão. Era um tal de sacudir o alambrado, até que um forte barulho se ouviu. Era o cano mais grosso que segurava a parte de cima que havia quebrado. Os policiais com cassetetes na mão nos ameaçavam. Houve todo tipo de xingamentos. Filho disso e daquilo, sua mãe é uma vaca e coisas assim saíam da nossa boca. Eu, como descendente de italianos, falo muito alto, mesmo sem querer, era a voz estridente que os guardas mais ouviam.<br>Minha cara já estava marcada, ia ser preso. Quando o alambrado foi ao chão, falei para meu amigo de jornadas pacaembuescas: Osvaldinho, vamos puxar o carro, que os urubus vão vir pra cima de nós. Na Avenida Paulista, fomos fazendo bagunça, ainda demos uns tapas nuns gambás, fomos beber pinga na Vila Nova Conceição, andando por toda a Avenida Santo Amaro. Eram três horas da manhã quando o colchão sentiu o peso de meu corpo.<br>No dia seguinte fui trabalhar normalmente, bastante feliz.<br><br>e-mail do autor: [email protected]