Era impossível deixar de reparar neles. Eram dois porquinhos de neon, talvez um azul e outro vermelho, e estavam sempre em frenético movimento.
Disputavam, de modo que parecia eterno,uma fieira de salsichas luminosas.Cruel ironia, visto serem, também, de condição suína.
Era aquele luminoso, há tantos anos ali, parte familiar da paisagem de quem descia a São João em direção ao Anhangabaú. Pudera,vi-o numa foto de 1942, da velha esquina São João com Líbero Badaró.
E talvez fosse ainda mais antigo.
Quando, em 60, com mais três amigos desenhistas, tive um estúdio, no já decadente Martinelli, lá continuava o luminoso, anunciando a famosa Salsicharia Especial. Devo mesmo ter comido lá, algumas vezes.
Por dois anos trabalhei ali, depois desfez-se o estúdio, e mesmo a amizade com alguns dos três. Muita coisa mudou, no Centro Velho e em mim, que também fui envelhecendo. Ir ao Centrão, coisa antes corriqueira e até indispensável, foi-se tornando cada vez mais rara, e quase impossível.
Nossa memória é frágil, e, às vezes, ingrata com as boas coisas do passado. Esqueci completamente a salsicharia do dois porquinhos, e tantas outras coisas dali.
Até que na comemoração dos 450 anos de São Paulo, visitei a magnífica exposição de fotos na FIESP, retratando várias fases de nossa cidade, desde sua fundação. A que mais falava à minha emoção era a referente ao final dos anos 50, quando, ainda adolescente, havia vindo com a família para a capital.
Começava então a luta para, além de estudo, achar trabalho, definir meus rumos, descobrir os mistérios do trato com as mulheres. Ser, afinal, um homem.
Entre as comoventes fotos da época, deparo com o velho luminoso dos porquinhos, em várias fases da região, até a mais recente foto, de 70.
Foi um retorno instantâneo a mais de 40 anos atrás, trazendo de volta todas as turbulentas emoções que povoavam minha juventude.
Estava novamente em 1962, descendo a São João, cruzando a Líbero Badaró e passando distraído sob a luta dos dois porquinhos, que nunca mais tornaria a ver, ao vivo e em cores.