1958: uma Vila Galvão da minha infância

Que ninguém se engane, o brusco sacolejar era desconfortável; trazia uma insegurança. Mas lá fora, para além das janelas abertas, surgia o momento tão aguardado. Era quando o trem atravessava, triunfante, o pontilhão sobre o Rio Cabuçu e tomava o rumo da Estação Vila Galvão. Assim do alto, o vagão aos solavancos e lá em baixo o rio em seu leito de pedras — meus olhos gulosos viam crescer um leve frio na barriga; sentia a força e o peso do aço das rodas rangendo a estreita ponte que resistia bravamente. Era uma experiência e tanto, marcante para mim, criança naquele instante: diante dela, sentia uma estranha sensação de medo, fascínio e contraditória satisfação.
E foram várias as viagens feitas no outrora Trem da Cantareira (ramal Guarulhos) que funcionou até meados de 1965. O trem ao partir da Estação Jaçanã, percorria praticamente em linha reta (atualmente é a Rua Abílio Pedro Ramos) até a estação seguinte da Vila Galvão. Ao transpor o viaduto da Rodovia Fernão Dias (então em construção), os vagões passavam muito rente às várias pilastras de sustentação. Em diversas situações de superlotação, estas pilastras foram causadoras de muitos acidentes, às vezes fatais. A presença, no local, de cruzes e velas derretidas compôs uma imagem de dor e ameaça que impregnou a minha memória infantil por muitos anos.
Sem dúvida, a passagem sobre o rio era o clímax das minhas atenções e se completava na chegada à estação. É que este pequeno trecho, entre o viaduto e a estação, a cascalhada via férrea se estendia plana, numa rampa elevada; não acompanhava o pequeno declive que havia (e ainda há) na divisa entre os municípios. De um lado a Vila Nilo, de outro, a Vila Galvão e o Rio Cabuçu a sinalizar a fronteira dos municípios de São Paulo e Guarulhos. Neste sentido, a rampa da via férrea cindia o bairro e duas acanhadas passagens permitiam o fluxo de carros e pessoas entre os dois lados. No entanto, era deslumbrante assistir, do plano da rua, a chegada ou a saída das composições por esta passarela. Sobretudo, a inesquecível silhueta noturna dos trens em movimento, puxados por locomotivas a vapor ou diesel e seus grandes faróis a iluminar feérico as noites nevoentas daquele tempo.
Os trens, ao deixar para trás a Estação Vila Galvão no sentido Guarulhos, faziam uma conversão à direita — os trilhos já dispostos no mesmo nível da rua e uma cancela no início da Rua Treze de Maio — e se dirigiam à estação próxima, Torres Tibagi, evitando a região acidentada de morros do bairro Picanço. Anos mais tarde, pós-desativação ferroviária, toda a via elevada foi demolida, as ruas que a margeavam alargadas e uma praça (a atual Santos Dumont) foi construída no local da antiga estação.

O bairro e arredores
Rua Onze de Junho era o nome (hoje, Francisco Pereira), uma rua de chão batido onde morei por quatro anos, de 1955 a 1958. Ela ficava paralela à atual Dona Eugênia Machado da Silva, a rua do extinto Cine Jade. As duas ruas tinham o seu início na Avenida Sete de Setembro, de frente à estação ferroviária; possuíam pontes de madeira sobre o Rio Cabuçu e terminavam na Fernão Dias. E eu morava a duas quadras e meia da Estação Vila Galvão, aliás, ao redor dela cresceu o pequeno núcleo comercial: tinha a padaria, o cinema, bazar, bares e oficina mecânica. Toda a topografia plana dessa área do bairro (uma extensão da várzea do Cabuçu) favorecia a existência de improvisados campinhos nos terrenos baldios das redondezas e o bate-bola corria solto junto à garotada.
Subindo algumas quadras acima, chegávamos à Praça Cícero Miranda e ao Parque Balneário Vila Galvão, cujo epicentro girava em torno de um lago (hoje também chamado de Lago dos Patos) formado pelo represamento do Córrego Jacinto. Desde aquele tempo, era um aprazível local propício a passeios e piqueniques. Havia na sua vizinhança, um pequeno estádio de futebol, e quase em frente, o Liceu Brasil todo cercado de eucaliptos. Ao lado da escola, mais abaixo, ficava a garagem dos ônibus da Viação Nefer. Mais acima, de frente ao lago (Rua Francisco Gonzaga Vasconcelos), havia alguns casarões (poucos) que ficavam quase ocultos sob densa vegetação de plantas e árvores. E em todo o lado oposto, sob um outeiro, se descortinavam as casas recentes da Rua Santo Antônio; e elas desfrutavam de toda essa bucólica paisagem.
Nesta época (1957-58), a pouco habitada Vila Rosália (situada nos altos de um morro e próxima ao Parque) estava em processo de arruamento e, ao mesmo tempo, sendo asfaltada. Se bem me lembro, era ali, junto a seus descampados, o local onde ocorriam saltos de pára-quedas. O grande alvo, sinalizando o ponto de descida, ficava num desses terrenos ainda vazios, sem nenhuma fiação elétrica (eram as duas primeiras quadras da atual Rua Pirapozinho, esquina com a Avenida São Luís). Mirávamos o céu e, de tempos em tempos, os pára-quedistas saltavam de pequenos aviões. Uma legião de curiosos acompanhava esses exercícios ou essa forma de competição.

Cabuçu: o rio e a estrada
No alto verão, chuvoso e de cheias, o rio descia barrento, pesado e caudaloso. O matagal próximo às suas margens vivia tingido de barro e era muito comum encontrarmos muitos sapos nas imediações. Ao evocar o Cabuçu, o velho rio da abertura deste relato, estabeleço uma conexão direta com os bons tempos do jardim-de-infância e 1º ano do curso primário (fui da turma da dona Iria em 1958). Tinha sete anos incompletos. A escola pública (1) onde estudei era de madeira e seu pátio sem cobertura terminava junto às margens do rio em uma espécie de prainha de terra batida. Na outra margem avistávamos um taquaral cheio de mato e, vez por outra, pássaros gorjeavam de lá. Treze anos mais tarde, em 1971 e em anos subseqüentes, presenciei as grandes inundações do Cabuçu lançando lama e sujeira pelas ruas já asfaltadas do bairro.
A outra grata lembrança desses anos eram os passeios que fazíamos de bicicleta pela antiga Estrada do Cabuçu. O nosso destino, o Mairiporã. De terra batida, o trajeto do Cabuçu incluía pequenas localidades rurais denominadas Doze, Quatorze etc; numa alusão abreviada aos km 12, 14 e por aí afora. E pelo caminho, muitas hortas e suas plantações. Eram chácaras e sítios, algumas granjas e até fazendas. A Vila Galvão deste tempo reunia um perfil peculiar: pouco urbanizada, persistiam nela fortes traços rurais e também um lado de estância climática. Sem alarde, algumas residências tinham um jeitão de casas de veraneio. Seria devido à proximidade do Parque da Vila Galvão e da Serra da Cantareira?

Os anos da construção da Rodovia Fernão Dias (2)
A respeito do início das obras não tenho qualquer lembrança; apenas me recordo que o Viaduto Vila Galvâo (sobre a linha do trem) já estava de pé. Os morros da Serra da Cantareira eram muito próximos ao bairro e estavam sendo rasgados para a construção da rodovia. Quando as grandes máquinas de terraplenagem cortavam os morros, por questão de segurança, não se permitia brincar nas cercanias, mas após sua passagem, lá estávamos todos, primos e vizinhos, a rolar por aqueles barrancos atapetados de terra macia a perder de vista. Num desses dias do verão de 1958, encontramos várias tubulações (algumas de concreto, outras de metal) que estavam espalhadas pelo canteiro de obras e, prontamente, incorporamos ao cenário de nossas brincadeiras. De repente, ao empurrarmos uma dessas tubulações houve um encontro inusitado: uma grande serpente surgira instalando o medo e a histeria ao bando de assustadas crianças. Pouco mais tarde, uma outra também dera as caras, novo susto, correria e um ajuntamento maior de pessoas: nada poderia deter o inevitável e, claro, elas foram abatidas a pedradas. Era evidente; a destruição do seu habitat favorecia essas ocorrências. Quando a Fernão Dias foi inaugurada (no decorrer de 1959, creio eu) já morava na vizinha Jaçanã. Mesmo assim, invariavelmente, nas férias ou em alguns fins de semana até o ano de 1961, sempre estávamos por lá a escalar aquelas encostas.

As casinhas dos morros da Fernão Dias (a atual Vila Nova Galvão)
Eram poucas, esparsas, as casas perdidas dispostas ao longo dos morros da Serra da Cantareira. Ao anoitecer, sem falta estavam lá, como estrelas penduradas na escuridão. Eram pontos de luz que surgiam; um sinal de vida ante os olhos distraídos. Para mim, eram as pequenas luzes desoladas, e foram assim que se fixaram em minha memória. Com o passar dos anos, muitas outras casas surgiram e um novo bairro se formou; mas ao contemplá-las à noite, lembro sempre das minhas impressões de menino.
Uma destas casinhas (recordo apenas da história, dita pelos mais velhos) tinha lá as suas excentricidades: nela morava um casal de pintores e sua impressionante coleção de cactos. Anos mais tarde, essa antiga história ouvida na infância ganharia sentido, pelo menos para mim. Soube que o pintor surrealista Walter Levy (1905-1995) e sua esposa moraram no bairro e a construção da rodovia obrigou-os a mudar. No final dos anos 1960, suas pinturas ficaram célebres — eram paisagens oníricas com rochedos flutuantes (na tradição “d’après Dali”) que se tornaram marca registrada de sua obra.

Chuvoso dia dezenove
Por fim, encerro aqui as recordações do recanto perdido da minha infância: — um momento de respirar fundo… A minha Vila Galvão de cinqüenta anos atrás: um fato irreversível; faça chuva ou faça sol, as dobras do tempo espreitam as nossas vidas. Ainda assim, o que esperar do largo véu poroso que é a memória de todos nós? Elas são como raízes… O tempo todo conosco. Vez ou outra — e desde que não nos traia — a revisitamos, na sina de preencher os silêncios. Hoje é sábado. Chuvoso dia, dezenove de janeiro. A noite chegou, tecendo uma leve brisa assim tal qual jasmim, e, por um instante, reverberou suas sombras num vapt! Ora uma, ora duas: mansamente…

Notas:
(1) Não me recordo do nome da minha primeira escola, apenas sei que ficava na atual Avenida Pedro de Souza Lopes (antiga Estrada do Cabuçu), próximo ao final da Rua Treze de Maio.
(2) No site, há um delicioso relato de autoria de Roque Vasto postado em 07 de fevereiro de 2007 que não posso deixar de citar: “Passeio de domingo – Vila Galvão”.

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