Totó na carrocinha

É bem coisa de criança, mas não canso de lembrar e contar essa pequena história que mostra também a dedicação de nossos pais. Ganhei Totó de um amigo de papai. Trabalhavam na loja de tecidos Tecelândia, sobre a qual escrevi um texto para este site. Eu tinha sete anos e era a mais apegada a Totó. Um vira-lata de tamanho médio, branco, com manchas negras e muito esperto. Latia bastante com voracidade para o homem do gás, para os vendedores e qualquer estranho que se aproximasse do portão. Totó me adorava e não sabia como me agradar quando eu voltava da casa de meus avós, onde costumava passar uma semana de férias. Ele me mordiscava os braços com carinho, deitado no meu colo de tanta alegria, mas isto não o impedia de buscar sua liberdade que para ele era ir passear na rua. Para tanto pulava o muro da frente. Da janela do quarto de meus pais eu o vigiava. Quando o flagrava prestes a pular o muro, repreendia-o e ele fingia que desistia. Vez em quando olhava para a janela a ver se eu ainda o vigiava e tentava várias vezes até eu arrumar o que fazer e ele fugir para a rua. Naquela época passava a famosa "carrocinha", funcionários da Prefeitura que recolhiam cachorros de rua, sem licença. Era um tal de Totó fugir deles… Conseguiu se safar mais de uma vez. Uma vez ele entrou na travessa à esquerda e os homens entraram atrás dele. Gelei. Passados uns minutos surge ele da rua de baixo, correndo feito um louco, como cachorro de corrida em reta de chegada. Não esqueço da surpresa e da alegria. Mas um dia os homens foram mais espertos e levaram Totó. Papai que vivia colocando-o de castigo e reclamando das suas travessuras, jurou que não iria buscá-lo e nem arrumaria outro cão. Eu lavava louça e chorava. Na época não tínhamos convênio médico e íamos ao INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) na Avenida Francisco Matarazzo. Fomos eu, minha mãe e minha irmã caçula Elaine. Na volta, ao descermos do ônibus, minha mãe parou na padaria e nos comprou sorvetes de copinho, da Kibon, daqueles bem caros que raramente degustávamos, tentando aplacar nossa tristeza. A casa ficava longe do ponto, mas foi logo ao virar a esquina da nossa rua que ouvi o latido de Totó. Alucinação? Sonho? Lá estava meu pai, em meio do horário de expediente, esbravejando e tentando prender Totó no porão. Inútil. Ele veio me encontrar, todo sujo e desesperado me lambendo, mordiscando… Meu pai louco da vida contando que gastou com táxi, taxa da Prefeitura para liberar o animal e de quebra ainda perdeu seus óculos, pois o funcionário não deu ouvidos quando meu pai avisou que Totó fugiria assim que abrissem a porta. Dito e feito. Partiu em disparada com o funcionário e meu pai correndo atrás do danado. Nessa corrida meu pai perdeu seus preciosos e caros óculos. Pobre papai. Totó viveu bastante e nos deixou mais essa história da dedicação de meu pai por suas filhas e sua família. Como esquecer uma história assim?

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