Eu sobrevivi ao show dos Menudos

Sábado, 16 de março de 1985. A amena manhã parecia prometer um dia satisfatório, embora houvesse nuvens no céu e uma nítida evidência de que o sol não daria o ar de sua graça. As probabilidades de imensas chuvas quase que inexistiam. Eu diria até que uns poucos chuviscos era o pior que poderia acontecer para que o dia não fosse perfeito.
Levantei-me, escolhi uma roupa leve (pois o calor era intenso) e,
cantarolando, fui fazer o desjejum. Eu estava feliz porque era sábado e ia descansar. Foi então que cruzei com uma menina que tinha algo familiar. Envergava um macacão jeans, cabelos presos por duas "Marias-Chiquinhas", várias pulseiras coloridas. Nos pés, um par de botas da moda e, nos lábios, um leve colorido róseo de batom. O meu batom! Era minha filha de oito anos… No instante mesmo em que me deparei com a "figurinha" paramentada num estilo meio "punk", meio "metaleiro", lembrei-me de que era o "Dia dos Menudos"! Por uma fração de segundos minha alegria se desvaneceu e fez-se notar em mim um vislumbre de desespero. Mas, já que não se pode lutar contra o inevitável – e o inevitável, naquele dia, era a promessa de irmos ao dito "show" – dei de ombros e, imbuindo-me de bastante otimismo, iniciei os preparativos para a aventura que começava ali.
Meu primeiro passo foi providenciar uma enorme cesta – a maior que encontrei – e nela armazenar alimentos sólidos e líquidos, chocolate (para o desgaste de energia), copos de plástico, canudinhos, agasalhos, revistas, enfim, tudo o que é necessário para um dia "divertido". Afinal, nós íamos ao Estádio do Morumbi! Por volta das 15h, meu marido, nosso filho (visivelmente contrariado, já que preferia um futebol aos Menudos) e eu, fazendo uma força imensa para nos convencermos a nós mesmos de que a tarde "diferente" ia ser uma experiência maravilhosa, "desembarcamos" com a cesta, guarda-chuvas, máquina fotográfica, binóculos, um franco sorriso nos lábios: E, é claro! Nossos dois anjinhos no imenso gramado do célebre São Paulo Futebol Clube. Devidamente "ancorados", aguardamos o que estava por vir. E veio: quinze minutos antes da hora marcada para o início do espetáculo, desabou uma chuva torrencial sobre todo o público presente… Mas como não queríamos manchar a imagem, pois que "não basta ser pai, tem que participar", decidimos não abandonar o campo e, sempre com aquele sorriso cordato e natural, próprio dos que estão "vibrando", conservamos o espírito esportivo e participamos. À medida em que a chuva aumentava, pouco a pouco o desespero tomava conta de nós até que, já ensopados, fomos procurar abrigo.
Tropeçando em latas, escorregando na grama, trombando com "menudetes" e
abrindo caminho na multidão atolada, atravessamos o campo e chegamos às
numeradas. Após tamanha batalha, nosso primeiro ímpeto foi o de "depor as
armas". Mas diante daqueles olhinhos lacrimejantes de nossas crianças, quem faria tal crueldade?
E, como ser mãe é padecer no paraíso, permanecemos naquele inferno por mais quatro longas horas. Às 22h, já abrigados, e com as roupas ainda úmidas, o show começou.
Charlie, Robby, Ray, Rick e Roy finalmente fizeram a platéia toda tremer. As crianças, de emoção; os pais, de exaustão.
Na saída, o coitado do povo – que superou com honra ao mérito todas as
provas de resistência física, psicológica e auditiva – por pouco não
sucumbiu ante o derradeiro obstáculo que lhe era infringido: transpor a
barreira humana que, aos gritos, pisões e cotoveladas, congestionava as ruas adjacentes.
E quando tudo terminou restou apenas um estádio vazio das 150.000 pessoas que o lotaram, então repleto de lixo e desolação… Ufa! Estou viva!

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