A Arlete fazia quinze anos. Ela era filha única, muito quieta, um pouco tímida, simples, feinha. A gente não brincava com a Arlete por todos estes motivos, tambem porque éramos um grupo com onze ou doze anos de idade, achávamos a Arlete velha.
Criança pode ser muito cruel.
Um dia recebemos convites para a festa de aniversário da Arlete,o endereço era numa rua da Aclimação. Apesar de não gostarmos da Arlete, resolvemos ir á festa para nos divertirmos á custa dela. Repito, criança pode ser mesmo muito cruel.
Resolvemos todos chegar atrasados para atrapalhar a festa, que deveria começar ás 5 da tarde. Lá pras 6 horas, o grupo todo chegou no portão da casa, que foi aberto pela mãe da Arlete, dona Ana, já dizendo com um sorriso “que bom que vocês vieram!”. Na porta, a aniversariante, toda enfeitada, de vestido amarelo e laços nos cabelos, sorrindo tímida e mandando a gente entrar.
Que surpresa! Que casa linda! Que mesa de iguarias fora preparada para nós! Um bolo maravilhoso em formato de boneca no centro e muitos salgadinhos que precisaram voltar ao forno pelo motivo da nossa demora. Na sala, alguns familiares, uma avó muito velhinha, mas as únicas crianças convidadas fomos nós. Dona Ana nos serviu amavelmente, nos empanturrando de empadinhas, pizzas e coxinhas, refrigerantes e doces, brincadeiras com prêmios haviam sido preparadas e ainda levamos comida pra casa. Arlete brincou conosco correndo pela casa e ao nos despedirmos ela já era da nossa turma.
Até hoje me lembro da vergonha que senti de mim mesma por ter pensado em estragar a festa da Arlete.
Às vezes me lembro dela, se do alto dos seus sessenta anos ela se lembra da sua festinha de quinze anos e das meninas que não eram suas amigas.
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