Zorra Total! Aquilo sim é que era zorra total! Aquele programa
de luta livre que passava na TV Record, nos meus tempos de garoto. Todo
sábado à noite tinha essa zorra total na tevê. E eu não perdia um. Mesmo porque não havia opções de programas na televisão.
E o tal do tele catch, como falavam, ou melhor, Os Reis do Ringue, era a
opção televisiva das noites de sábado. Lembro bem daquelas lutas. A começar pelo apresentador, o Raul Tabajara. Acho que Raul sempre foi nome de apresentador de programa de auditório. E cada um na sua especialidade, conforme o sobrenome. O Gil, convenhamos, está mais para apresentador de programa de calouros. Tiro o chapéu pra ele, apesar de não gostar muito do programa. Mas tá aí já há bastante tempo, sempre com seu indefectível microfone de ouro. Acho até que herdou do outro, apesar de não ser Raul, o Athaide Patrese, que Deus o tenha. Agora, Tabajara tinha mais mesmo é que apresentar tele-catch, né não?
Ringue montado na Avenida Aratãs, sede da Record antes de se evangelizar, lá estava todo sábado à noite o Raul Tabajara, todo engalanado (vixe!) para apresentar o meu programa preferido, pelo menos nos sábados.
Microfone pendurado que descia do teto, ou do céu, sabe lá Deus da onde, ele não falava “ladies and gentlemen”. Era “senhoras e senhores”, pra todas as senhoras e senhores e crianças da época entenderem.
Abria com todo o garbo exigido para o momento, como um reitor em cerimônia de formatura de turma de universitários. De smoking e tudo mais, conforme as exigências da magnífica apresentação. Abria solenemente o grande espetáculo da luta-livre. Ele, com aquele microfone dos céus, era magnânimo no centro do ringue. Estava aberta a sessão.
E o Raul chamava os contendores das lutas. Lá vinham os lutadores dos
vestiários, atravessando o corredor entre o público, recebendo aplausos,
vaias e bolsadas da Dona Maria, conforme seus currículos recomendassem. E
vinham com toda a pompa e cerimônia, acompanhados das suas trupes de
preparadores físicos e técnico.
E quanto mais famoso o lutador maior era a trupe. Tinha gente especializada para cada coisa. Parecia mais equipe de Fórmula 1. Tinha gente pra por o baldinho, gente pra tirar o baldinho, gente pra enxugar suor, pra estancar sangue, pra tirar protetor bucal, pra colocar de volta, pra ajeitar a luva, pra passar vaselina na sobrancelha e dois orientadores técnicos, cada um falando em uma das orelhas. Esses eram os lutadores famosos. Agora, os desconhecidos e novatos, só tinham mesmo o pai ou algum irmão, que fazia de tudo.
Mas, lá vinham os lutadores, com seus roupões de seda acetinada, brilhando mais que o suor na testa, e aqueles calçados engraçados, mistura de coturno de exército com sapatilha de bailarina. Esses, os famosos, tinham inclusive seus nomes de pop star estampados em bordado dourado nas costas. Letras garrafais e estilosas. Já os novatos e desconhecidos possivelmente usavam roupa, o felpudo de algodão velho e bem surrado, literalmente, dado por algum amigo ex-lutador. Mas isso não importava, era mero detalhe. O importante mesmo era ouvir seus nomes anunciados pelo grande mestre de cerimônias, Raul Tabajara, chamando-os para a luta.
Os contendores eram sempre classificados na eterna dualidade bíblica do bem e do mal. Assim, havia os lutadores sangue-bom, os do bem, e os lutadores “sangue nos olhos”, os “coisa-ruim”, os do mal. E evidente, as lutas seguiam rigorosamente esse criterioso sistema de confronto entre as duas categorias.
E assim se fazia: no grande ringue, no palco do espetáculo, no seu centro, estavam todos postados, o Raul ao meio, separando os lutadores, para a apresentação das regras do jogo, da luta, em que evidentemente o do bem sempre seguia e o do mal, nunca.
– E para mediar este combate, o grande árbitro Isidoro – o Raul falava ao microfone do céu. Isidoro também sempre foi nome de árbitro de tele-catch.
E assim passavam-se as noites de sábado. Eu, na frente da televisão,
assistindo meus grandes heróis: Fantomas (o primeiro lutador mascarado, acho que foi o precursor dos Power Rangers), Barrigana (português amigo de meu pai e mestre da cabeçada), Michel Serdan (hoje faz propaganda de carro), Aquiles (parecia o Brutus, inimigo do Popeye), o grande Ted Boy Marino (o primeiro galã lutador oxigenado) e muitos outros mais (Tigre Paraguaio, Verdugo, Ulisses, Gino Durandi, El Toro, Leão do Líbano, El Cid, Barba Rocha, Cavernari, Espanholito, El Condor, Hercules, Tony Videla, Lothar, Rasputim, Múmia).
Todos lutadores. Os do bem e os do mal. E lógico, os do bem sempre venciam, mas apanhavam muito!
Noites inesquecíveis das grandes zorras totais que sempre foram as noites
dos sábados.
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