Rotina de peão

19 de janeiro de 1955 – comecei a trabalhar na Real Transportes Aéreos, em Congonhas, na função de estafeta. Mais tarde essa função veio a ganhar o nome de office-boy. Seis dias depois, no aniversário da cidade, foi inaugurado o salão principal do aeroporto, o qual continha restaurante 5 estrelas e salão de baile. Embora o trabalho exigisse muita movimentação na entrega e coleta de correspondência entre departamentos e filiais, sempre sobrava um tempinho para me enfiar na cabine de um Douglas DC-3, ligar a bateria e o rádio e fazer testes de fonia com a torre de controle. Engolindo o almoço fornecido pelo SAPS* em menos de 10 minutos, eu gastava o resto do tempo para, com um manual de operações na mão, fuçar na cabine de um C-47. O deslocamento de casa para o trabalho e do trabalho para casa é que era triste. Eu tomava o ônibus verde do Emílio Guerra da linha Vila das Belezas para Santo Amaro. Como estava no meio do trajeto, eu me pendurava na porta até Santo Amaro. Ali ia para o ponto inicial da linha 103. De Santo Amaro para o centro de São Paulo tínhamos apenas três opções: o ônibus 103, via aeroporto de Congonhas, o ônibus 79, via Avenida Santo Amaro e, por último, o bonde 101. Em 1956 eu queria fazer o curso de piloto e, antes de qualquer coisa, precisava de tempo para voar. Pedi a meu chefe um regime de 6 horas em 6 dias da semana. Ele respondeu que somente o comandante Linneu Gomes, o presidente, poderia autorizar. Procurei Dona Wanda, a secretária do comandante Linneu, expliquei-lhe minha pretensão e ela prazerosamente me introduziu na sala do chefe. Ele ouviu o que eu tinha a dizer, sorriu e disse-me: "Peça a seu chefe para falar comigo". Daí em diante passei a acordar às 5 da manhã, chegar à Real às 7, sair às 13 e pegar o ônibus da linha 113, descer no Anhangabaú, comer um sanduíche de pernil bem gordo na esquina da Avenida São João, pegar o bonde 43 no Largo de São Bento, descer na Ponte Pequena, atravessar a várzea onde hoje está o Parque Anhembi, assinar a lista de presença no Aeroclube de São Paulo, voar das 14:30h às 15:30h e depois pegar o bonde 43 para o Largo de São Bento, assistir aula de inglês no Yázigi da Rua Líbero Badaró, voltar ao Largo de São Bento, pegar o bonde 43, descer na Ponte Pequena, atravessar a várzea, comer um sanduíche de filé mignon no bar do Aeroclube, assistir aulas teóricas das 20h00 às 22h00, pegar o bonde 43 e no Anhangabaú pegar o ônibus 79 para Santo Amaro onde, na rodoviária que existia atrás da igreja, pegava o ônibus Vila das Belezas, chegando em casa por volta de uma hora da madrugada. Que bom que essa rotina era só nas terças, quintas, sextas e domingos. Nos outros dias eu saía do trabalho às 13 horas direto para casa. A linha 103 era extremamente irregular com intervalos entre ônibus que variavam de meia hora a duas horas. O jeito era esperar o ônibus no bar Santos Dumont que ficava onde hoje está a agência do Bradesco em frente ao aeroporto. Muitos artistas avessos a badalações e apreciadores de uma cachaça esperavam ali a hora de embarcar (Dom Cicillo, concessionário do restaurante do aeroporto, não servia pinga. Anos mais tarde convencemo-lo a ter cachaça para servir a estrangeiros em trânsito). Ali no bar Santos Dumont conheci Adoniran Barbosa e Ângela Maria. Nós, peões, ficávamos atentos à aproximação do ônibus e quando o víamos corríamos para o ponto. Ao chegar em Santo Amaro íamos para a rodoviária. A única coisa desagradável era que, enquanto estávamos de pé na fila do ônibus Vila das Belezas na rodoviária de Santo Amaro, tínhamos que ouvir pelos alto falantes o Programa Manoel de Nóbrega e um tal de "Peru que Fala" que, mais tarde, copiando as Cestas de Natal Amaral, criou o Baú da Felicidade. A despeito do sistema de som, guardo boas lembranças daquela rodoviária, em especial do Toninho Sapateiro, um anão dotado de forte personalidade. Não sei se a idade me deixou preguiçoso, mas achava menos estafante fazer tudo aquilo em transporte público do que fazer, hoje, em meu automóvel.
* SAPS – Serviço de Alimentação Pública e Social, cujo restaurante e cozinha ficavam nos baixos do viaduto Santa Ifigênia. A comida que eles forneciam no interior do estado seria considerada como "lavagem".

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