Há muitos anos eu não tinha o privilégio de passar pela Botica Ao Veado de Ouro. Dessa vez eu prometi para mim mesma. Eu me programei, fiz mentalmente o meu roteiro histórico e também gastronômico antes de sair de Florianópolis – dessa vez tinha que dar certo.<br>Tomamos o ônibus, descemos perto do Mercadão, aproveitei e fiz umas compras – o damasco delicioso, a granel – para cobrir com chocolate, a castanha portuguesa, as gomas sírias, mas, principalmente ali aproveitamos a visão magnífica de um mercado vivo, tão cheio de cores, sabores e aromas, com os azeites extra-virgens pendurados aos montes, de Portugal, da Itália, da Espanha… o cheiro das azeitonas e dos condimentos por todos os lados. Fervia, como sempre, mas de energia vibrante, colorida, perene.<br>Dali meu filho e eu aproveitamos para caminhar… e fomos em direção à Rua São Bento, aproveitamos um pouco do Canto Gregoriano, com aquele frescor inconfundível da Igreja São Bento, bem aquela que, de tão próxima, quase dá pra colocar o pé no Viaduto Santa Ifigênia, aquele que o doce Adoniran chamara a Eugênia para ver como tinha ficado bonito.<br>Aí não teve jeito, entramos na Botica, que já tem 150 anos! Continua aquela entrada estreita, lá no fundo, com os atendentes com os seus jalecos muito brancos, atendendo respeitosamente, com muita atenção.<br>De pequena eu ia até lá com muita freqüência com o meu tio Dante, que é farmacêutico de primeira linha, muito conhecedor da arte de curar e das boas leituras e do refinado conhecimento da política nacional. Naquele tempo, ali no térreo, funcionava o laboratório de manipulação, muito atraente, com um cheiro característico, sempre abarrotado de clientes com as suas receitas, cada um buscando a sua cura, a eterna vontade de viver na frente e atrás de cada balcão.<br>Hoje, no mesmo espaço, funciona com mais destaque a parte de cosmética, mas a Botica mantém a sua importância, o seu charme, a sua tímida imponência mesmo escondida em meio aos prédios de relevância para o mercado, em meio à pressa de milhares de transeuntes com o tempo contado para entrar no trabalho ou para pegar o ônibus de volta pra casa.<br>A Botica é parte integrante da identidade de São Paulo, pois em 1858, data do seu nascimento, São Paulo ganhava destaque em função da grande produção do café. Tempo do Brasil Imperial, do II Reinado, e a explosão da importância do Estado, então Província, se deu em 1870, com o auge da produção do café no oeste, vindo daí a luta pela proclamação da República, com o nascimento do Partido Republicano, clubes e jornais, a imigração se transformando num grande projeto social e também econômico. A abolição da escravatura ia ganhando significado mais amplo, também pelos gritos dos estudantes das arcadas do Largo São Francisco.<br>A Botica estava ali, paradinha na Rua São Bento, lá no cantinho, só olhando o movimento, saboreando as transformações, de olhos grandes e abertos e brilhantes, a construção de um Brasil novo a partir de São Paulo… manipulando medicamentos, eliminando feridas, tanto físicas quanto de almas, fazendo uma nova história, contribuindo para a construção de um novo tempo.<br><br>e-mail da autora: [email protected]