República do Paraguay

Todos os dias, quando volto do trabalho, passo diante da Escola República do Paraguay, na Vila Prudente. Dia desses, noite quente, céu lavado pela chuva de verão, escuro e profundo, me lembrei dos meus tempos de escola. Parei por um momento, afastei os pensamentos "adultos" da minha cabeça já cansada e voltei no tempo. Pude ouvir a gritaria da criançada saindo para o "recreio". Senti o gosto do pão com goiabada tirado da lancheira de plástico e lembrei dos colegas, há muito tempo encerrados num cantinho da memória. Lembrei de rostos, de vozes, de sardas, olhares faiscando de alegria e de entusiasmo pela nossa vida cheia de desafios e descobertas. Lembrei da professora Ana Paula, de Matemática. Como era bonita! E como se vestia bem… vestido tubinho, curto, maquiagem impecável, cabelo longo, escuro, preso por uma faixa combinando com o vestido. Sempre pensei que queria ser como ela, quando crescesse. A professora Altina, de Inglês… que medo tínhamos dela! Lembro que tivemos que fazer uma peça teatral baseada no Dom Quixote, em inglês… entre trágico e cômico, lá íamos nós, cheias de esperanças e de sonhos nas cabecinhas pré-adolescentes. Nossos campeonatos de handball, as aulas de artes e as “perseguições” que fazíamos, depois da aula, pelas ruas do bairro ao colega Manolo que não dava bola pra ninguém. Por onde andarão todas aquelas carinhas, que hoje recordo com tanto carinho? <br>Somente quando chegamos na maturidade da vida é que percebemos como são importantes os anos de nossa meninice. E como são importantes todos aqueles que, mesmo sem saber, nos ajudaram a chegar até aqui: a amiga que foi solidária quando fiquei de castigo na sala por não ter feito a lição. Aquele que se levantou em minha defesa quando fui injustamente acusada de algo… aqueles que “assopravam” a resposta da pergunta difícil, que me pegava de surpresa. <br>Todos os dias, por quatro anos, tive a alegria e o privilégio de dividir minha vida e de aprender com pessoas que me ajudaram a ser quem sou hoje, com sua inocência, seu entusiasmo e com sua alegria de viver. Nossas vidas eram simples, éramos de famílias trabalhadoras e materialmente tínhamos apenas o suficiente, mas sentíamo-nos as mais ricas e felizes das criaturas. <br>Não é saudosismo isso que descrevo. Tampouco é uma comparação com a vida hoje. Bem sei que em todas as escolas, em todos os bairros desta e de todas as cidades, existem histórias semelhantes. Porque, em sua infinitude e diversidade, o ser humano tem essas pequenas semelhanças que enternecem o coração. É apenas uma pequena homenagem que presto às pessoas que caminharam comigo nessa época bonita da minha vida, à escola que é um marco e uma referência no bairro, aos professores que deixaram suas marcas na minha formação e a esta cidade que amo de coração, por abrigar tamanha diversidade humana!<br><br>e-mail do autor: [email protected]