O Bazar 13 era o palácio encantando do sonho das crianças pinheirenses. Era a mais completa loja de brinquedos da região, portanto, passagem obrigatória de todas as crianças do bairro.
Ainda mais na época de Natal, aquilo era uma grande festa. A Teodoro Sampaio se enfeitava toda para receber as crianças do bairro e do resto da cidade. Era uma das poucas regiões que tinha esse saudável hábito de festejar a data, pois o comércio ali era bastante forte.
Mas o Natal sempre foi muito especial, em especial para a gurizada. Sempre foi e sempre será, mesmo que os pequenos não tenham a real noção dessa data tão importante para a cristandade. Mesmo que não saibam exatamente o significado do renascer em Cristo, da renovação dos nobres valores humanitários.
Eles, os pequenos, na verdade, sabem que algo de muito mágico acontece nessa época do ano. Mesmo que não tenhamos neve. Mesmo que não tenhamos renas. Mesmo que não tenhamos lareira para colocar nossas meias com os pedidos de presentes.
E essa magia se deve a um ser muito querido, o Papai Noel. Tanto para a criança rica como para a criança pobre, de alguma maneira ele habita o imaginário. E acreditar na existência dele é um grande sonho infantil.
Por outro lado, descobrir que ele, o Papai Noel, não passa de uma figura lendária, talvez seja um dos primeiros sentimentos de que a realidade pode ser muito mais cruel que os nossos sonhos.
Lembro dos Natais da minha infância. E como com toda criança, era muito bom saber que o Papai Noel traria meu presente, logicamente condicionado a uma série de exigências de bom comportamento.
Lá em casa, minha mãe me incentivava a colocar os bilhetes com os pedidos de presente em alguma meia que ficava pendurada na árvore de Natal. E talvez a primeira frustração era, ao abrir o presente na noite de Natal, saber que nunca era exatamente o que eu havia pedido. Mesmo porque, hoje entendo, eram pedidos muito pretensiosos para nossa realidade doméstica. Mas de qualquer forma, era um presente que eu ganhava, sendo que muitas crianças pobres não tinham essa chance, como dizia a minha mãe. Apesar da frustração, sempre havia alguma lição para se aprender.
Todavia o que mais me decepcionava não era esse fato em si, pois até pensava que o culpado era o próprio Papai Noel que tinha trocado os pedidos. Talvez houvesse entregue o meu pedido, que sempre era de maior valor e importância que o recebido, na casa de outra criança por engano. Neste caso era sempre eu o azarado, que acabava com o prejuízo da confusão do bom velhinho, que pela sua idade, coitado, até poderia se justificar.
Na verdade, intrigava-me era saber se esse ato falho era proposital. Daí pensava que o presente recebido era o que eu merecia mesmo. E o presente melhor tinha ido para outra criança com comportamento muito mais exemplar que o meu, como bom filho. Ou alguma criança que tivesse ido muito melhor na escola, como bom aluno. Ou outra que tenha matado muito menos formigas, minhocas e tatus-bola no jardim da escola. Aí me penitenciava mesmo. Aquele presente era o que eu merecia! Mas, como disse, me consolava, pois, afinal, não tinha sido tão mau a ponto de não ganhar nada.
Contudo se esse era um fato que, frustrante, sempre me fez pensar muito, aconteceu outro bem pior.
Como falei no início, todas as crianças do bairro iam ao Bazar 13 para ver os brinquedos e principalmente para ver o Papai Noel, que lá dava plantão permanente nessa época do ano, sentado em seu trono majestoso, naquela sua roupa rubra brilhante, que destacava a alvice da sua barba e do seu cabelo.
Era maravilhoso ver aquela figura terna recebendo a nós, crianças, em seu colo, cheia de carinho e bondade e o mais importante, sempre com um pirulito escondido na sua roupa, prontinho para nos dar. Nos postávamos ali na fila, pacientes, aguardando a nossa hora de sentarmos no colo do bom velhinho e já com as respostas ensaiadas para as perguntas que ele inevitavelmente faria: se tínhamos nos comportado bem, se obedecíamos a nossos pais, se íamos bem na escola.
Para mim, ele estava ali na loja para ouvir nossos pedidos. E à noite, quando a loja fechava, transportado magicamente pelo tropel de renas, ele voltava para a Lapônia ou algum lugar parecido, com aquelas paisagens de neve, onde, em sua casa de madeira com uma aconchegante lareira para espantar o frio, preparava os milhares de presentes para serem entregues nos lares das crianças comportadas na noite de Natal. E assim, ia sonhando, na esperança de ganhar o meu presente pedido, pois afinal, eu não era um menino tão desobediente.
Mas um dia, indo ao banco com o meu pai, vi o Papai Noel. Não com seu brilhante traje vermelho, mas sim com uma calça rancheira e camisa de gente normal, igual a do meu pai. Ele estava ali na mesma fila, algumas pessoas atrás de nós.
Imediato, puxei a calça do meu pai e falei baixinho pra ele.
– Aquele lá é o Papai Noel.
Meu pai não deu muita importância. Mas diante da minha insistência puxando-lhe a perna, proporcional à minha surpresa, ele olhou mais atentamente e me disse que eu devia estar enganado.
– Magina, Papai Noel! É um homem parecido, mas não é o Papai Noel.
Não me convenceu. Eu tinha certeza que era ele. Me pus a pensar o que estaria ali fazendo, naquela fila. Estava ali aguardando como nós. Não é possível. Ele manda em tudo, não é? Como pode ter que ficar na fila esperando, ainda mais atrás de nós! Será que o dono do banco não vê que ele é o Papai Noel e não o tira da fila ou ao menos lhe dá um banquinho para se sentar?
Estive muito perto de ir lá no balcão falar pro caixa que deviam ter mais atenção com o Papai Noel.
Continuei pensando: que será que ele está fazendo aqui? Será que está pegando dinheiro para pagar seus ajudantes que separam os presentes com ele? Ou será que veio pegar dinheiro para comprar mais presentes, pois as crianças são muitas?
O fato de ter visto o Papai Noel ali e com todas essas perguntas sem respostas me deixou bastante confuso e confesso que um pouco desiludido, pois algo me dizia que aquele mundo fantástico do Papai Noel em alguma coisa era parecido com o do meu pai. Pelo menos no que dizia respeito a ficar de pé numa fila de banco.
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