São Paulo da garoa, uma sexta-feira, 21 horas, salão de baile da boite do Colégio Rio Branco, ainda na sede original da Rua Dr. Villanova, ano de 1949. Lá, como crooner, a Hebe Camargo, 22 anos, cantando sob o som da orquestra de Silvio Mazuca. Eu, com 16 anos, só a via de longe sem direito a dança. Proibido para menores.
Assim foi a adolescência de muitos colegas do Liceu Rio Branco, hoje notáveis na história brasileira, como o Senna, o Carlos Alberto da Nóbrega, Tarcisio Meira, Ademar de Barros Filho, entre outros. Cada um no seu tempo, ouvindo a voz de Hebe ou de outras celebridades da época.
1950 chega com o sinal da primeira transmissão da televisão brasileira, ao vivo e em preto e branco. Novamente lá estava a Hebe, o primeiro rosto feminino da TV nacional, conduzida pela iniciativa de Chateaubriand, diante das câmeras da TV Tupi de São Paulo.
Em 1960, ainda estudante de Direito e jornalista por vocação, comecei a fazer parte também da televisão, porém, como apresentador, produtor e editor de uma revista especializada.
Como repórter, vivencio o inicio, o auge da Jovem Guarda no palco do Teatro Record, com os principiantes Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jair Rodrigues, Wanderléia e Elis Regina. Ídolos, que ainda vivem, quase imortalmente, neste século XXI.
Com Roberto Carlos, quando não tão famoso ainda era, fiz uma entrevista, no seu apartamento no bairro de Santa Cecília. Fui recebido, com carinho, juntamente com o fotógrafo paranaense José Kalkbrenner.
Hoje, Roberto Carlos, mesmo famoso, continua o mesmo, com quem mantenho contato, através do seu amigo "Chacon" seu reconhecido "sósia curitibano". Não mudou nada. Mantém-se simpático, simples e cortês com os amigos, desde o inicio de sua carreira. Para estranhos, claro, a história é outra.
O Erasmo Carlos, seu eterno parceiro, era, em 1967, extremamente tímido, mas de uma simpatia sem igual. Aceitava toda a orientação do fotógrafo, para a melhor pose.
Da mesma forma também Wanderléia e Jair Rodrigues que, como os outros astros, começavam a despontar como ídolos da Jovem Guarda.
Mas com Elis Regina a coisa foi muito diferente. A “Pimentinha” era fogo, mesmo sem, ainda, ser famosa. Fomos encontrá-la sozinha debruçada num piano, no mezanino do Teatro Record, na Rua da Consolação. Reagiu agressiva e negativamente ao convite de uma entrevista, que não concedeu. Saímos com o rabo entre as pernas. E não seriamos os primeiros nem os últimos.
São Paulo é uma cidade sem mistérios, aberta como Roma. A diferença é saber descobri-la. Quem não a procura, não a encontra. E quem a encontra, sabe entendê-la, desde os encantos do Bar Brahma, da Avenida São João, da Igreja de Santa Cecília, do Museu do Ipiranga, do viaduto do Chá, da Rua São Bento e do fenomenal edifício Matarazzo, um símbolo postal da cidade.
São Paulo é tão marcante, que parece não existir. Para compreendê-la não basta visitá-la. É importante e indispensável tê-la vivido. Não perca tempo, comece agora para saber vivê-la amanhã. Leva algum tempo, mas vale a pena.
São Paulo, a cidade sem contra-indicação e sem efeitos colaterais. Dúvida? Quem a viveu desde os anos 40, dos tempos da II guerra mundial, da boite La Licorne, dos bondes, da Itaboca, da Aimorés, desafio: quem quer que seja a dizer o contrário.
Quem se habilita?
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