É um relato exclusivamente de memória do transporte. Dum aficionado. Digamos, "paixão". Pela CMTC! Parte dela, pelo menos. Da CMTC, da qual nunca fui funcionário: só passageiro. Aquilo que dela não "vivenciei", pesquisei em arquivos de jornais. Ambos "nascemos" em 1947: a CMTC e eu. Meu pai trabalhou por 35 anos nas oficinas do Cambuci, da Light. A qual passou os bondes para a CMTC. Quando eu era moleque, todo 15 de novembro íamos ao Cambuci, pois a Light, nessa data, promovia bela festa cívica. Pela proximidade de trilhos, fios, veículos…, talvez daí eu tenha começado a gostar de bondes e ônibus. Aqueles prédios de tijolinhos vermelhos, as gares ("estações") de bondes me fascinavam: a do Brás, a da Alameda Glete e a de Vila Mariana. Os respectivos pátios repletos de monstrengos barulhentos. Ali, descansando, alavancas de contato baixadas – dando trégua ao consumo de eletricidade que lhes alimentava os motores.
Como é sabido, a CMTC foi grande e fundamental para o crescimento da cidade. Como empresa mista, é certo que também "cabide de emprego" e alvo de interesses de políticos. Num País em que o erário se sujeita a cobiça de oportunistas, muitas devem ter sido as irregularidades. E para uma cidade historicamente sofredora com a precariedade de transportes, a CMTC foi alvo de greves, quebra-quebras e de descontentamento por aumentos de tarifas. Mas, para mim, então moleque, o que me fascinava eram os bondes, os ônibus e os trólebus. Nisso, a CMTC era grandiosa. Ela que surgiu "encampando" pequenas empresas. As quais, desde os anos 30, teimavam em incomodar o monopólio da Light (bondes).
De julho de 47 até a gestão de Prestes Maia, a CMTC ostentou o lindo padrão de pintura creme e vermelho (meio que grená). Com o indefectível logotipo "CMTC". Cartões-postais dos anos 50 mostram (infalivelmente) carros da CMTC em vistas como Avenida São João, Praça Ramos, Nove de Julho, Aeroporto… É só pegar um postal, dessa época, por exemplo, do Anhangabaú, e lá está: um Twin-Coach! Paulistanos meus contemporâneos (60 aninhos) lembrarão do molejo suave daquele lindo carro. Com o inconfundível pára-brisas "tetraédrico". Passava num buraco do asfalto como se flutuasse… Lembrarão: linhas como a 5 e 6-Estações. Americanos, vieram zerinho km em 1949. Iguais aos da Cometa, que iam para Santos e São Vicente. "Estações": passavam pelo Centro e – como diz o nome – pelas estações ferroviárias. Cheios de "batedores de carteira"! Larápios que, comparados a marginais adolescentes de hoje, seriam "anjinhos". Essas duas linhas rodavam em sentidos contrários. E os lindos GM, também americanos e zerinhos, que iam para os lados da Lapa e Perdizes? Ronco inconfundível do motor diesel (dois tempos?)… Por curioso, a primeira linha deles – inaugurada em maio de 47 – era a 40-Jardim América! Chique estréia: Jardim América… Mais apropriado não teria sido uma linha de… limusines?
Lembro bem: motoristas, motorneiros, cobradores e fiscais. Todos uniformizados: paletó e gravata, plaqueta de identificação no quepe. A CMTC mantinha também bela banda de música, que se apresentava em eventos comemorativos. Tinha casa de praia (Itanhaém). Era uma "empresa" gigantesca: garagem de trólebus na Aclimação; garagens de ônibus em Santo Amaro, Jabaquara, Cambuci, Pompéia, Lapa, Itaim-Bibi (alguém pode informar onde ficava?). Nos anos 80, outras mais surgiram. Sem esquecer a também enorme da Vila Leopoldina. Enormes também as oficinas da Santa Rita e Araguaia. Onde os veículos da frota eram "recuperados", como se dizia. Em 57, por aí, ônibus recuperados traziam o lema, escrito na lataria: "Mais transportes, Melhores transportes". Alguém lembra?
Muito antes que a Mercedes-Benz do Brasil, a partir de 56, começasse a dominar o universo de ônibus urbanos, a frota da CMTC era heterogênea – e importada. Eu, como os aficionados, guardava bem as características: ruídos de motores, solavancos, frentes e traseiras, detalhes outros. Por exemplo, o trólebus Westram (americano) apresentava letreiros duplos. E na traseira, uma advertência aos outros motoristas: "freios de ação rápida"! E, como americano, suas luzes de breque acendiam em inglês: "STOP"! As do GM também.
Os resistentes ônibus ingleses ACLO, sucessivamente, ao longo dos anos – desde 1948 – reformados e reformados… Os das linhas 47-Vila Clementino e 48-Paraíso. E de outras tantas linhas, principalmente para os lados do Jabaquara. E então o avô dos atuais articulados? O "papa-fila"! Gigante semi-trailer, em que um "cavalo-mecânico" (caminhão) FENEMÊ tracionava um reboque, CAIO ou Grassi. Barulhento. Lerdo. Trambolho que – se encrencasse sobre os trilhos do bonde – parava São Paulo. Tinha deles para Osasco, Jabaquara… Além da CMTC, teve deles a Guarulhos. Lino de Matos os inaugurou em março de 56. Cansei de ver passageiro descer em ponto bem além do desejado quando, por exemplo, o motorista – lá no "cavalo" – não ouvia o sinal acionado no reboque! Devido ao barulho do motorzão Alfa-Romeo. Duraram poucos anos.
Outra curiosidade: como é sabido, os trólebus – ou "ônibus elétricos" – foram inaugurados a 22 de abril de 1949 por Adhemar de Barros. Dirigindo um. "Dirigindo": motorista da CMTC ao lado… Trólebus que, nos primeiros anos, privilegiavam bairros nobres: Aclimação, Jardim Paulistano e Jardim Europa. Jânio compra trólebus alemães em 54 e, finalmente, em 58, os primeiros trólebus "nacionais": Grassi-Villares. Inspirados em trólebus americanos. Em 58, ainda, os primeiros microônibus, mais ou menos como os atuais. Vieram do Rio, trazidos por Adhemar. Duas primeiras linhas: Santo Amaro e Tucuruvi. Pequenos, baixos, só levavam passageiros sentados. O motorista cobrava. A tarifa era mais cara que a dos ônibus "comuns".
De 47 até Prestes Maia, a CMTC foi creme e grená; com Prestes Maia, os veículos se tornam alaranjados; a seguir, com Faria Lima, a "Nova CMTC", se torna creme e azul. Com os sucessivos prefeitos, a CMTC foi mudando de cores, uma mais feia que a outra. Jânio, introduzindo os "dois-andares", dá ares de London Transport à CMTC: a frota se torna vermelha.
Muito bem caberia um livro contando a história da CMTC. Que, infelizmente, não sou eu capaz de escrever. Um bonde aberto, um camarão e um Centex; dois trólebus e o ônibus "Mônika"; fardamentos, documentos, miniaturas, passes de ônibus; razoável coleção iconográfica; um vagão de carregar areia; biblioteca… É o Museu "da CMTC": o que restou de memória da Empresa, devido ao amor e a abnegação de ex-funcionários, liderados pelo senhor Ferolla. Belo museu, impecavelmente conservado. Vale a pena visitar.
Porém, é muito pouco. Foi muito pouco. Pela grandeza – e pela importância histórica – daquela que, certamente, haverá de ter sido uma das maiores empresas de transporte coletivo do mundo. "Reclamações: Rua Martins Fontes, 230". Constava, em letras maiúsculas, caprichosamente, no interior dos ônibus da CMTC.
Se eu pudesse voltar no tempo, "reclamaria", então, pela, digamos, pouca importância com relação à grandeza da Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Entre as inúmeras garagens, uma poderia muito bem ter se tornado um grande museu, realmente representativo da Empresa. Reclamado, pois, fica, a despeito do tempo…
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