Sábado é dia de passeio, em qualquer dos quadrantes do sertão. Nos tempos de roça, poderia ter uma quermesse, preparativos para algum baile ou uma tranqüila pescaria… Aqui no sertão paulistano, dentre labirintos de concreto, largas avenidas, estreitas ruas ou nalgum dos inúmeros parques que conseguiram sobreviver à sanha imobiliária, uma simples caminhada ainda possibilita descobrimentos. Aqui, ali, uma sacada, um adorno, um mosaico, uma arcada, que sempre passam despercebidas na azáfama diária…
Assim, num sábado desses, desembarcamos na Estação da Luz. Montado em meu cavalo, o Murzelo Alazão, tendo a Musa à garupa. Saímos “al tranquito”, como se dizia na região onde nasci, lá no Pontal do Paranapanema, influência dos gaúchos e paraguaios que atravessavam o Paranazão (Rio Paraná), vindos do Grande Mato Grosso, antes da divisão. Começamos pela Pinacoteca do Estado, onde o moderno, o clássico e o pop convivem com harmonia: a Exposições; pinceladas livres e soltasi; painéis de colagens e material reciclável, provavelmente inspirados em Andy Warhol. E logo ali, um pulinho só, a Sala Almeida Júnior, exposição permanente com obras clássicas como “caipira picando fumo”, “caipiras negaceando”, retratos de tipos humanos da cidade e da roça, senhoras da alta aristocracia paulistana do século passado, que enchem as paredes e nossos olhos. Nos demais corredores, topamos com Di Cavalcanti, Lasar Segall, Tarsila do Amaral, as enigmáticas esculturas de Brecheret… Até a lojinha de lembranças encravada numa ala central possui coisas interessantes, a preços variados.
O Jardim da Luz não é apenas o parque público mais antigo de Sampa. Repleto de histórias, sob as bençãos de Frei Galvão – cujo mosteiro fica nas imediações – o Jardim abriga árvores centenárias e uma vasta variedade de pássaros migratórios que já chamou a atenção de ornitólogos, impressionados com a capacidade de servir de pouso para aquelas aves oriundas de várias partes do continente e que encontram nessa minúscula mancha verde em meio à poluição e barulho, seu ponto de parada. Chamam a atenção as jaqueiras e seus enormes frutos grudados nos galhos lá no alto… Curiosamente, percebo que meu cavalo, o Murzelo Alazão, está um tanto receoso de descansar em sua sombra convidativa… Estaria esse pangaré cobarde receoso de alguma daquelas jacas despencar em nossas cabeças?
Observando com cuidado, resquícios de uma época em que o lugar fora absolutamente tomado pela degradação, persistem, com certa obstinação: pelos cantos, velhas prostitutas fitam o vazio com ar nostálgico… um velhinho estava tentando convencer uma jovem envelhecida pela espessa maquiagem a acompanhá-lo para um dos inúmeros hoteizinhos de alta rotatividade que ainda sobrevivem na região… A garota parecia querer certificar-se de que ele possuía realmente algum dinheiro; ele parecia receoso em mostrar… Fomos embora deixando o impasse em aberto.
Fizemos um rápido passeio pela Rua José Paulino, a Meca do comércio popular de roupas, conhecida como a “Oscar Freire dos pobres”. A primeira impressão não é boa, com aquele magote de gente se acotovelando, disputando espaço com os carros. Porém, ao se reportar a sua origem, aquela rua – que na verdade, engloba várias ruas adjacentes – encravada no bairro judeu, nos fornece algumas pistas para se compreender sua natureza: podemos nos imaginar no Grande Bazar de Istambul, ou no centro de Fez, no Marrocos ou num Grande Mercado Persa, lá por volta do ano 1.000 de nossa era, quando judeus e árabes (então chamados Ismaelitas, confirmando a origem comum) conviviam pacificamente. Aqui, no Bom Retiro, podemos acrescentar os coreanos…
Quem anda pela região, deve considerar indispensável conhecer a Sala São Paulo, localizada onde antigamente funcionava a Estação Ferroviária Júlio Prestes. Hoje abriga a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, sob o comando de John Nesching, o polêmico maestro que trouxe uma dignidade antes considerada impossível para o músico chamado erudito… E ali, nas cercanias, está a Universidade de Música Tom Jobim e a Universidade Zumbi dos Palmares.
Na Avenida Cásper Líbero, colada à velha Estação da Luz – que abriga o Museu da Língua Portuguesa – está sendo desenvolvido o Projeto Nova Luz, ousada iniciativa entre o setor público e privado, que futuramente abrigará um gigantesco conglomerado, com shopping, Centro de Exposições e Convenções, museus, etc. Por enquanto, só tapumes e brigas na Justiça por conta dos valores indenizatórios, porém, é uma aposta bastante viável para quem acredita no potencial que a região central da cidade oferece. Méritos para a Associação Viva o Centro e as Secretarias do Planejamento e Desenvolvimento Urbano.
A meio caminho, nas proximidades da Avenida Rio Branco, a dúvida: ir ao Bar do Leo tomar o famoso chope, ali na Rua Aurora, ou alimentar o espírito passando pelas Igrejas Santa Ifigênia, com seus afrescos danificados e em reforma permanente? Um tanto cansados pela caminhada e pensando estar o Bar do Leo cheio, preferimos a tranqüilidade espiritual. Lembramos Adoniran Barbosa ao cruzar o viaduto e concluímos a jornada admirando o interior do Mosteiro São Bento. Seguindo em frente, valeu a pena passar pela Casa de Anchieta, ver o que resta da antiga parede de barro, adobe e taipa, perfeitamente conservada. Visitamos a Capela e adentramos ao restaurante localizado no interior da Casa para tomar uma cerveja, pois, após tantas visitas a igrejas e santuários, estávamos nos sentindo meio santos e a cerveja nos trouxe de volta aos deliciosos e irresistíveis prazeres mundanos… Para almoçar, demos uma esticadinha até a Liberdade, a um restaurante que mesclava comida brasileira e japonesa. Preferimos a japonesa, os peixes, o arroz, os molhos. Tudo muito bom, saboroso, autêntico. Já os funcionários fantasiados de samurai, eram absolutamente de araque. Duvido que soubessem uma só palavra em japonês… Ainda bem que a etiqueta não nos obrigava a comer com os tais pauzinhos e assim, nos salvamos todos!
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