Saudades dos tempos de outrora

Em 1951, eu com doze anos, não fazia outra coisa senão ir à escola e brincar. No ano seguinte, Minas Gerais mandava para São Paulo uma “manada” de pessoas vindo da cidade de Guaxupé. Duas famílias que por aqui chegaram para ajudar o progresso da “cidade que mais crescia na América Latina”, jargão muito usado naquela época. Das famílias em questão estavam a de seu Manoel Maiotti, sua esposa, e os filhos Carlos, Marlene, Zilda. Os demais nasceram aqui. Romeu, Ana e os gêmeos, Marcos e Márcia. Também seu irmão Firmino e esposa, e a filha Diva. Ambos moravam na Rua Ponta Delgada à beira do Córrego da Traição. Com as enchentes o córrego roubou uns dois metros de terreno. Seu Manoel, que era pedreiro, dizia que se alguém quisesse comprar sua casa, tinha que saber que o terreno adentrava o córrego. Seu Firmino já morava ao lado uns quinze metros longe do córrego. Eram corintianos e, dava raiva ir lá ouvir a transmissão dos jogos entre Corinthians e Palmeiras, numa época em que o Corinthians sempre ganhava.<br>Em frente morava outra família que era parente do seu Manoel, que veio pouco tempo depois.<br>O nome do pai não lembro, mas a mãe chamava dona Ana, e os filhos tinham nomes meio esquisitos. Ampélio, Hitler, Getulio e José, que meu pai chamava de Zé do Lixo, porque gostava de revirar latas de lixo que estavam à espera dos coletores.<br>As brincadeiras eram aquelas de sempre. Bolinha de gude, bafinha, rodar pião, brincar de mocinho, pular sela, empinar quadrado (pipa), jogar malha e, o melhor de tudo, jogar bola.<br>A Vila Olímpia e o Brooklin eram de terra preta. Era poeira ou barro. Um autêntico brejo, que inspirou alguém a colocar o nome de Rua Brejo Alegre, na rua mais conhecida do Brooklin Novo. Já do lado da Vila Olímpia, do outro lado do córrego, tinha a Rua Bugiu, em homenagem a nós, que ficávamos pretinhos de terra depois das brincadeiras. Quando chovia era uma coisa de louco, caminhão usava correntes nas rodas para poder sair do barro. Quando estávamos na estiagem, a poeira pretejava os pulmões. Era um tal de ficar um bom tempo assoando o nariz para tirar aquela coisa preta de dentro. Quando chovia, o córrego enchia até a boca, a ponte era formada por quatro tubos de concreto de um metro e meio de diâmetro, dois de cada lado. Numa madrugada o córrego encheu e os detritos que vinham da região da Vila Mariana e Ipiranga, tapou a boca dos tubos e a força da água levou tudo embora. No dia seguinte, sábado, eu tinha que ir à missa de formatura da escola Aristides de Castro que ficava no Itaim, como eu morava já do lado do Brooklin, não pude ir. Ficamos um bom tempo sem ponte. Tinha que atravessar o córrego através de uma pinguela (ponte de madeira com 60 cm de largura) Depois de muito tempo, outra ponte foi feita e novamente nos mesmos moldes. Não demorou muito e outra chuva de verão levou também aquela. Depois construíram uma ponte de verdade que ficou até 1970, quando começou a ser construída a Avenida dos Bandeirantes.<br>Uma coisa que fazíamos e que ninguém gostava (os adultos) era pegar sapo no córrego e colocar cigarro na boca dele. O sapo não expirava. Então a fumaça era aspirada e o sapo ia inchando. Quando ele estava quase estourando vinha sempre um e enchia o pé. Pronto, já era um sapo. Depois que ele secava, chamavam nossa atenção para não deixar ele de barriga pra cima, porque dava azar. Era o mesmo que deixar o chinelo de sola pro ar.<br>À noite brincávamos de pegador. O quintal da casa do seu Manoel era muito bom para isso, tinha muitos lugares para se esconder, mas ficou chato porque ele para ganhar uma graninha de aluguel fez uma casa de madeira. Ali morava um casal, que só vinha à noite. E era justamente a hora que a brincadeira era boa, pois era bem escuro não havia iluminação pública. Um dia coube a mim ficar no pique, que era na casa dos inquilinos. Enquanto fazia a contagem até vinte para eles se esconderem, olhei por um buraco que tinha na madeira e lá estava o casal transando com a felicidade que Deus mandou. Caí na asneira de falar para eles. Ai foi um tal de “é minha vez de ver”. Só que quando a barulheira acabou, pois estava todo mundo quietinho olhando um pouquinho, o seu Manoel achou estranho aquele silêncio e foi olhar. Viu todo mundo se revezando para olhar as delícias do sexo. Foi uma bronca terrível, e a brincadeira acabou ali.<br>Outra coisa que fazíamos bastante era correr atrás de balão. Onde caía balão as pampas era no Morumbi. Mas não era qualquer um que podia ir até lá, pois era muito difícil chegar a pé, porque tinha que passar pelo rio Pinheiros e para isso era preciso ir até a Cidade Jardim pela ponte e depois subir pelas trilhas, pois não havia ruas. Lembro-me que estavam loteando o Morumbi.<br>Meu pai não queria ir pra lá nem de graça. E nenhum dos vizinhos se atreveu em comprar, pois era só mato e árvores. Uma verdadeira floresta.<br>Eu era o único do bairro que lá ia. Ia de bicicleta, beirando o rio, subia a rampa da ponte Cidade Jardim e ia subindo por trás da Usina de Traição. A subida era tão íngreme que tinha que descer da bicicleta. Ali eu ficava a espera de balão. Sozinho ali sentado em meio às arvores todo arrepiado por qualquer barulho de galho ou até de algum bicho que por ali passava, dizia-se que tinha muito tatu. Eu mesmo não vi. Qualquer folha de árvore que caía dava pra ouvir o barulho. Dava-me arrepio na espinha ficar ali naquele silêncio a espera de algum balão. Um dia, o Nezão me disse que o forte era ir um dia depois das festas Juninas, logo pela manhã, pois aí dava pra pegar os balões que vinham apagados e ficavam no chão.<br>Caso alguém não fosse lá recolher, eles ficavam rasgados pelo vento que os carregava e se rasgavam nos galhos de árvores rasteiras. Não deu outra, quando do dia de São João de 1953 ou 54 por ai, lá fui eu. E não deu outra. Ia pelas 10 horas da manhã, pois era o momento que saía o sol e a cerração estava se dissipando.<br>Muitos balões caídos devido à neblina estavam descolados, pois naquela época era comum usar cola de farinha de trigo. Tinha que fazer duas viagens ou mais, pois não dava para colocar no guidão da bicicleta mais do que dois.<br>Eu ia buscar com o Carlos e o meu irmão José, providenciando as tochas. A principio meu irmão colocava breu na tocha. Mas ficava pesado, tinha balão que demorava a subir e quando subia não ia muito longe. Então várias experiências ele foi fazendo.<br>Começou com a tocha-cruz. Para isso, reduzia o tamanho dos chumaços, em formato de cruz, fazia o fogo se expandir mais pelo balão adentro. Um dia ele viu que as velas não eram mais de sebo, e sim de parafina. Testou uma tocha só com parafina molhada levemente em querosene. Não deu outra, os bichos subiam que nem foguetes.<br>Um dia, meu pai pediu um para meu irmão, exímio fazedor de balões. Meu pai dizia que ele tinha esterco na cabeça, tamanha sua capacidade em fazer as coisas direito. Pediu um balão bem grande. Foi na copa de 1954, era para soltar no dia da vitória do Brasil em cima da Hungria.<br>Meu irmão fez um balão charuto de 96 folhas, nas cores verde, amarelo, azul e branco, em forma quadriculada. A tocha em forma de cruz era feita de forma proporcional ao tamanho do balão, três tochas foram necessárias para suprir aquele balão grande. Tudo certo. Na hora de soltar, foi com tristeza, pois o Brasil perdeu de 4 a 2, e veio pra casa mais cedo da Suíça. Na hora de soltar não foi muito fácil, pois o balão era tão grande que alguém teve que subir no telhado para segurar o bico de cima, na hora de botar fogo. De qualquer forma depois de aceso o balão começou a encher e já se notava a força para subir, meu pai o segurou um pouco mais para ter mais força ainda na subida. Depois foi só soltar as mãos e deixar o bicho subir. Quando ele estava já no ar, o Berto soltou um caramuru para saldar o grande feito, só que o foguete estourou dentro do balão, que veio a queimar. Apesar das desculpas, meu pai não engoliu que foi sem querer. “Esse filho daquela, fez foi de propósito!” – Disse ele, revoltado. Daí pra frente chegaram os 14 anos da turma, e a idade de trabalhar. Brincadeiras somente aos sábados e domingos.<br><br>e-mail do autor: [email protected]