Prepotência, intolerância e arrogância

Na década de 1940, as manchetes dos principais jornais de São Paulo, Gazeta, O Estado de São Paulo, Correio Paulistano, Folha da Manhã, só davam notícias sobre a guerra, há pouco terminada.
Os primeiros bailinhos, festinhas, os primeiros contatos e as primeiras visitas às ruas Itaboca e Aymorés, redutos oficiais das prostitutas profissionais, no Bom Retiro (permitido só pra maiores de 18 anos; eu tinha 15 a 16 anos). Além do policiamento intensivo, a zona contava com assistência médica, submetendo as mulheres a exames ginecológicos; grávidas e com alguma suspeita de doença venérea, não podiam receber ninguém, tudo pra proteger o cliente. E a elas, quem protegia? Nunca me pediram um atestado médico, quando entrava na rua. Quer dizer que o homem podia ter relações com quem quisesse, mesmo estando “bichado”, ia passar a infecção pra outra infeliz e ela, por sua vez, ficaria sem exercer sua profissão. Os sanitaristas recomendavam que obrigassem o freguês a usar a camisinha, o que complicava a sua atividade, pois a grande maioria não queria nada disso, diziam que era o mesmo que chupar balas sem tirar a embalagem. Os freqüentadores assíduos escondiam das suas famílias suas duas ou três idas semanais à zona. No ambiente do lar, quando o termo “saco” era um palavrão, Aymores e Itaboca então, nem se fala. Um verdadeiro sacrilégio, um crime lesa-pátria pronunciar estes nomes. Numa ocasião um primo meu apareceu com uma perna engessada e todo mundo quis saber o que tinha acontecido. Ele disse que tinha caído do bonde, mas sem dizer que bonde e onde, porque, todos nós sabíamos que pra ir a escola à noite ele não tomava nenhuma condução e pra trabalhar durante o dia também, ia a pé. Descobrimos, depois, que ele caíra do bonde Casa Verde, na Rua José Paulino, em frente à travessa Aymorés. Aí veio a gozação, ele que nunca queria nos acompanhar, por ser mais velho que todos, (2 ou 3 anos, se tanto…) se julgava independente em tudo. Rezervadíssimo, Angelo não queria ceder, ele não foi à zona e está acabado.
Aí veio o Garcês, governador de São Paulo que, em nome da decência e dos bons costumes, mandou fechar a zona do meretrício, na certeza de que ele conseguiria acabar com Sodoma e Gomorra e a profissão mais antiga do mundo. Mas, isso tudo ficou para o folclore…
Nesses anos São Paulo crescia vertiginosamente, novos edifícios, novas avenidas eram inauguradas, o prefeito de São Paulo, na época Prestes Maia, um dos maiores e melhores que nossa cidade já teve, imaginava o crescimento do centro, projetando e executando a Avenida Irradiação, um anel viário urbano que iria aliviar o trânsito.
Em 1954, ano do IV Centenário, dentre todas as festividades, houve um desfile de várias escolas de São Paulo, de outros estados e algumas convidadas do exterior. Todas mostrando suas fanfarras estridentes, coloridas e bem ensaiadas. Esse desfile passou pela Avenida Mercúrio, em frente ao Palácio das Indústrias e eu assisti com forte emoção, pois adorava (e ainda gosto muito) do som dos tímpanos, caixas e cornetas e o malabarismo da baliza a frente, com a batuta. Mas, bastante influenciado pelo cinema, leituras, músicas e tudo que se relacionava aos americanos, eu era um sonhador inveterado, vidrado em poder um dia ir pra lá. Como tinha (e tenho) parentes norte-americanos, esperava concretizar meu sonho. Aí minha emoção chegou ao auge: no desfile iria passar a fanfarra do Miami Jackson High School, famosa escola da Flórida, nos EEUU. Menino, que show aquelas meninas deram, uma verdadeira aula de como se faz esse tipo de desfile. Duas ou três balizas, o conjunto de caixas ritmando, os pistões, flautas e flautins, as matracas, tubas e chocalhos, tudo num conjunto formidável e um sincronismo exuberante. Lembro que as músicas eram populares, no ritmo ligeiro e estonteante de Nova Orleans.
Falando em bandas e fanfarras, lembro da que abrilhantava as procissões da igreja de São Vito, que percorriam as ruas da redondeza, Álvares de Azevedo (hoje Polignano a Mare), Assumpção, do Lucas, Fernandes Silva, Benjamim de Oliveira, da Alfândega, Cantareira etc. Nas da Semana Santa, quando o andor era de Cristo morto, eu sabia até o repertório: Marcha Fúnebre de Beethoven e a de Chopim. Nas de São Vito e Santo Expedito, em junho, o repertório era O Cisne Branco e as já consagradas marchas de John Philip Souza. Na dos Santos Cosmo e Damião, em setembro, o repertório era variado, até Aquarela do Brasil saía.
Um pequeno detalhe acontecia na procissão do São Vito e Santo Expedito, era a disputa pra carregar o andor desses santos; desde os primórdios do século passado, já se usava o critério de uma espécie de leilão, os quatro que queriam carregar o andor de São Vito, pagavam um determinado valor que o leilão alcançava. Nos anos 40, apesar da guerra e a proibição de se falar em público, alemão, japonês e italiano (quanta bobagem, meu Deus) a procissão e os leilões seguiam como se nada houvesse. Nesta época, garoto, quando não estava atrás da banda e bem perto do tambor, (por isso que até hoje não canso de ouvir o Bolero de Ravel) eu era um dos que carregavam um dos quatro lampiões que guarneciam o andor e ouvia todos os leilões que se fazia nas periódicas paradas. O mestre-sala começava, sempre em polignanês, dialeto que é uma mistura de latim, árabe, grego e uma pitada de sarraceno, resultando daí um idioma que nem o próprio italiano entende. Quem entendia? Só nós, da terra ou descendentes. Traduzido dava nisso: “Pili devot ca stane sote, quane mi a dê?” (Para os devotos que estão em baixo, quanto vocês me dão?” ). Os interessados se reuniam, sempre em quatro e os quartetos davam seus lances num valor sempre acima do valor pago pelos que estavam carregando até então (uma nota preta, meu pai nunca quis entrar nessa) e o que vencia pegava o andor até o próximo quarteirão. Porque era no dialeto? Pra que ninguém que não fosse barês viesse a carregar o andor. Exclusivo da colônia, não era pra “frastiere” (forasteiro). Quem quisesse carregar um andor que fosse para o santo Expedito, que naquela época não gozava de tanto prestígio, como hoje.
Agora, impagável era ver a pose dos que venciam o leilão, comerciantes bem sucedidos na zona cerealista da Rua Santa Rosa, peixeiros do mercado central e outros. Mantinham o nariz empinado, pose típica de “capo mafioso”, mostrando a todos seus conterrâneos que eles conseguiram “fazer a América”.
Depois de várias queixas, o leilão passou a ser feito em português. Hoje, carrega quem quiser e sem a obrigação de pagar coisa alguma; e a imagem do santo é a mesma de mais de 100 anos e com apenas meio metro de altura. Relíquia de Polignano a Mare, província de Bari, sul da Itália.

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