A Caderneta

Zezinho, pega a cardeneta e vai na venda do Zé Português buscar café e um quilo de lingüiça.
Era assim que dona Angelina, minha mãe, falava quando queria alguma coisa do armazém do português, e lá ia eu com o papelzinho com tudo o que era pra trazer, só não estava escrito o docê, que eu sempre pegava, uma paçoquinha ou maria-mole, e mandava marcar junto na caderneta, aliás não sei porque razão minha mãe insistia em dizer cardeneta.
Seu Manuel, meu pai, sempre que ia na venda, tomava lá os seus gorós, e mandava marcar. No dia dez de cada mês, dia em que saía o pagamento, somava a caderneta, e entre café, açúcar, arroz, feijão, mistura, etc. lá estavam também, um docê e um goró, um docê e um goró…
Fechada a conta, meu pai pagava o português; juros? Que juros?
Ganhava uma lata de goiabada por ser pontual.

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