Idealista falido, mas vencedor

Nasci no Brás, na Rua Caetano Pinto. Quanta coisa boa e ruim que eu com meus 6 anos depois me lembro. Brigas, primeiro presente de natal… Morávamos em um cortiço, eu, meu pai, meus dois irmãos mais velhos junto com meus avós maternos e dez tios e tias, todos solteiros. Meus avós espanhóis faziam pirulitos e vendiam em pequenos tabuleiros com furos em que os pirulitos ficavam. Que saudades dos churros. E as matinês no Cine Olímpia, o cortiço dava fundos para o cinema e meus tios pulavam o muro e me levavam com eles.
Depois meus pais mudaram para o bairro do Belém em uma casa alugada na Rua Itabaiana e eu fui estudar no Grupo Escolar Amadeu Amaral. Era uma aventura para ir e voltar porque tínhamos que atravessar a linha do trem na Rua Silva Jardim e era comum gente morrer ao atravessar a linha. Na época, a porteira era manual e ninguém respeitava para atravessar, era quando aconteciam os acidentes. Eu perdi um colega de escola nessa passagem.
E o bonde, que saudades, pegávamos ele no Largo São José do Belém e pulávamos na esquina da Rua Herval com a Rua Silva Jardim. Não tínhamos televisão, somente um rádio valvulado que eu tenho até hoje como lembrança aqui em casa, meu pai falecido trabalhou durante 40 anos na Ribeiro Sa Fábrica de Teares.
Na Siqueira Bueno, minha mãe lavava roupa para fora e cuidava da limpeza de outras casas e cuidava de mim e de meus outros três irmãos. Mesmo com toda dificuldade éramos felizes. Com dezoito anos adquiri minha carteira de motorista e fui logo trabalhar com caminhão, fazer viagens entre Rio e SP. Quanta loucura, perdi vários amigos em acidentes, eu mesmo tive dois graves, mas sobrevivi.
Mas voltando ao Belém: não sou corintiano, mas tenho uma grande amizade com o Carbone, que foi campeão no IV Centenário pelo Corinthians e também com um jogador da época menos conhecido que foi também campeão pelo Corinthians chamado Diogo. Meu time é o Palestra. Não esqueçam, eu nasci na Rua Caetano Pinto e lá só tinha italianos.
Tem um fato histórico que pouca gente deve lembrar, em uma festa de 1º de maio uns paraquedistas resolveram pular e aterrissar no campo de futebol do Fillipo, que era na Rua Siqueira Bueno esquina com a Rua Serra da Bocaina, e um deles caiu quase em cima do telhado do prédio onde era uma Cia Têxtil. Aí teve que vir uma escada para tirar ele de uma janela na qual ele ficou pendurado. Hoje vivo no bairro de Vila Diva, próximo ao Shopping Anália Franco, com 64 anos e duas filhas e esposa e ainda dirijo caminhão, agora por minha conta. Tentei ser várias coisas em minha vida, piloto de avião, paraquedista, jogador de futebol, músico, engenheiro e não consegui. Mas sou um vencedor, Deus me deu a competência de dirigir caminhões e passei por várias empresas de nome entre as quais a Viação Cometa. Hoje já não sofro mais dos meus ideais perdidos ou não conquistados, pois dou muito valor para a minha profissão. Agradeço todos os dias a Deus por ter me indicado o caminho, mostrado o meu real tamanho e me tornado um vencedor.

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