Verão

Chegou o Verão! Mais um Verão.
É uma estação de magia. Pra mim, a melhor das estações do ano. Mas há os que preferem outras. A Primavera, a estação das flores, de preferência talvez das mulheres e dos românticos. O Outono, a estação da renovação. Ou ainda o Inverno, quando todos se recolhem, se voltam para seus interiores.
Mas o Verão é sempre o Verão. A estação do sol, astro-rei. A estação do calor. Do povo à vontade, dos corpos a mostra. Ombros e braços. Da alegria. Do picolé na minha infância e da cerveja na minha juventude.
Todo Verão sempre foi muito esperado.
Lembro ainda da minha tenra infância, quando íamos para a praia no Verão. Apartamento emprestado por um primo do meu pai. Aquilo tudo era um ritual. E como todo ritual, exigia um longo preparativo, que fazia com que nossas expectativas aumentassem.
Ir para a praia era, acima de tudo, a possibilidade de usufruir aquilo que a natureza nos dá de melhor. O sol, o mar, o sal do mar. O vento no rosto, a aragem e a brisa do mar. O pé na areia. O contato direto com a natureza. O iodo, que a minha mãe tanto falava. Segundo ela, até a minha bronquite melhorava. Era saúde pura na forma de ondas, e a cada onda uma carga de energia, recarregando nossas baterias gastas nos embates do dia-a-dia, durante o ano todo.
Transpor a serra a caminho do mar era uma verdadeira aventura. Meu pai mandava o carro, um Aero-Willis, para uma revisão geral na oficina do Seo Zig Fritz, um alemão muito amigo dele. O carro passava por uma série completa de testes durante uma semana. Motor, parte elétrica, velas, suspensão, pneus e principalmente radiador. O radiador é que comprometia toda a performance dos carros na subida da serra. Como pra descer todo santo ajuda, na subida quem ajudava era o radiador. E o do nosso Aero-Willis, tratado pelas mãos santas do Zig Fritz, nunca nos deixou na mão, ou melhor, no pé, no pé da serra.
Passados os verões da minha infância, vieram os da minha época de escola. Esses tinham até um apelo mais forte, talvez, pois eram os que sucediam aos duros anos letivos. Eles chegavam logo depois das intermináveis temporadas de caça às cabeças dos alunos cabeças de bagre: a quinzena de provas finais na escola, os exames e eventualmente, quase sempre, a segunda época. Sempre tinha uma maldita matéria e sua respectiva professora pra nos infernizar as almas. Quase sempre era a Dona Eneida de Matemática quem retardava nossa temporada de férias. Ela era implacável. Parece que tinha raiva do Verão. E acho que tinha mesmo. Aquela alvice da pele dela não deixava nenhuma dúvida quanto a isso. Devia detestar o sol. E assim, tentava, através do rigor de suas notas nas provas, colocar toda a classe de recuperação de segunda época. Quase todos os alunos da sala viam o Natal e a primeira quinzena de Janeiro comprometidos com os estudos para a famigerada prova. Só os CDFs se safavam. Eram poucos. E assim nossos encontros com o sol eram retardados.
Mas, dificuldades escolares superadas, íamos de encontro ao nosso tão esperado verão, com o sol, o mar, a areia, a praia. Os guarda-sóis coloridos, as esteiras esticadas na areia, o picolé, a raspadinha de groselha, o milho-verde. Os garotos jogando bola ou futebol ou vôlei. O vôlei era melhor; impressionava mais as garotas. As garotas pegando uma cor, deitadas nas esteiras, passando sobre a pele aquele besuntado caseiro à base de urucum, beterraba e Coca-Cola, tudo misturado para dar mais efeito. Sem essa de FPS 60. Mesmo que depois tivesse que usar Caladryl por uma semana, numa queimadura de terceiro grau por todo o corpo. O sol e a água do mar eram nossos amigos. Não se falava ainda em camada de ozônio nem em coliformes fecais.
Era a época de reencontro com os amigos da praia. Aqueles que só víamos no verão. Curioso isso, dizem que amizade de praia não sobe a serra! Mas éramos uma turma legal. A maioria de São Paulo mesmo, acrescida de alguns do interior, Campinas, Piracicaba, São José, numa mistura de sotaques. E apesar de só nos encontrarmos nas férias, éramos amigos carnais.
Jogávamos muita bola na praia, durante o dia todo. À noite, íamos até a praia novamente. Mas passávamos pelo parquinho de diversões. Carrinhos de bater; a nossa turma ocupava a pista toda. E o lance era bater de frente com o carrinho. Fazer o amigo sentir dor na espinha. Pura maldade! Depois voltávamos para a porta do prédio, onde ficava o apê emprestado pelo meu pai. E era ali o nosso point. Quase toda a turma ficava ali. E vinham outras também, de outros prédios. Todos para ouvir um dos nossos amigos que barbarizava no violão: sucessos de Roberto e Erasmo, Vanderléia, Martinha, Leno e Lilian, Ed Carlos, Trio Esperança, Golden Boys, Sérgio Reis… Meu coração não é de papel… Os Incríveis, que incrível! Outros sucessos internacionais: Petula Clark, principalmente Beatles… Yesterday, all my troubles seemed so far way…, aquelas letras que a gente fingia saber em inglês.
E ao som da música, conheci uma grande paixão. Uma garota que me fez sentir a magia do amor. Sentir friozinho na barriga e as pernas tremerem pela primeira vez. Um beijo roubado. E outro e mais outro. Seu nome tinha tudo a ver com a estação. Era verão… Amor de verão! Dizem que amor de praia não sobe a serra! Porém eu sabia que no próximo verão, ela estaria lá.
E assim foram muitos verões. Verões que foram e muitos outros que virão, como as ondas do mar na areia da praia. Um eterno renovar!
Viva o Verão!

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