Nossa chegada em São Paulo

No ano de 1940, nossa família chegou em São Paulo, vinda de Itapetininga. Em São Paulo, fomos residir na Rua Amaral Gurgel, 564, no bairro de Vila Buarque, pois seria bem perto do Instituto Caetano de Campos, onde minhas duas irmãs fariam o curso de Pedagogia. Assim, elas ingressaram naquele curso e passaram a ser chamadas de “as normalistas". Estas alunas na época foram homenageadas por um samba, cantado pelo Nelson Gonçalves, e de autoria de Benedito Lacerda e do David Nasser: vestida de azul e branco, trazendo um sorriso franco, num rostinho encantador, minha linda normalista rapidamente conquista meu coração sem amor… E vai por aí… Eu e meus irmãos mais velhos passamos a freqüentar a Biblioteca Municipal Infantil Monteiro Lobato, na Rua General Jardim, que tinha como sua responsável a benemérita professora Lenyra Camargo Fraccaroli, que aliás também foi sua fundadora no ano de 1936, a qual nos dava iniciação para o curso primário. Porém nesta época grassava em São Paulo um surto de tuberculose e então passamos a fazer exames periódicos no Instituto Clemente Ferreira, ali bem perto da Rua Amaral Gurgel, ou seja na Rua da Consolação. Meus pais foram então aconselhados por seus responsáveis a nos enviar, como prevenção, a um Preventório na cidade de Campos do Jordão, o Preventório Santa Clara. E então, de 2 em 2, lá fomos nós, passar 6 meses naquela Instituição… Que coisa ótima… Lá aprendemos desde cedo, sob as ordens de Madre Olga, a "sermos gente"… Passado o tempo, voltamos à São Paulo e chegando, nossa família já não mais estava na Rua Amaral Gurgel e tinha se mudado para o bairro de Santana, à Rua Frei Vicente do Salvador, 100, rua que na época era um morro íngreme, que tínhamos que subir para chegarmos em casa e quando chovia. Eram tombos e mais tombos com os escorregões na lama e chegávamos em casa com a roupa toda enlameada, o que obrigou os moradores em "mutirão" a escavar no centro do morro, uma escadaria à enxadadas, em forma de platô… Depois viríamos a nos mudar do "morrinho" para a Rua Duarte Azevedo, 93, ainda em Santana.
Estávamos no ano de 1942, em plena guerra na Europa, nosso divertimento era "rodar pião" e colecionar as famosas "Balas Futebol", nas quais vinham "enroladas" figurinhas de jogadores de futebol da época, tanto de São Paulo como do Rio de Janeiro… Tinha as "figurinhas carimbadas", que geralmente eram trocadas por nós "moleques", na base de 5 a 10 figurinhas, até completar-se o álbum. Nesta altura eu, já com 8 anos, comecei o 1º ano primário, no G.E. Frontino Guimarães, na Rua Conselheiro Moreira de Barros, em Santana. Meu pai, que chegou a ser vice-prefeito em nossa cidade (Birigui), perdeu tudo durante a ditadura de Getulio Vargas, uma vez que fazia parte da oposição à Ditadura, o que obrigou toda a família a sair de Birigui (na declaração do Estado Novo em 1937), para Itapetininga e desta então para São Paulo em 1940. Quando chegou, meu pai foi trabalhar como operário na Fábrica de Chocolates Lacta, na Rua José Antonio Coelho, no bairro de Vila Mariana, que na época era do Ademar de Barros, político de São Paulo. Minha santa mãe cuidava da casa (alugada) e dos oito filhos, os três mais velhos eram as mulheres e os outros cinco homens, o mais velho deles estava com 12 anos… Mesmo assim precisávamos começar a trabalhar. Eu quando completei 11 anos, em 1944, comecei a trabalhar na Agência Faísca, no Largo de São Francisco, entregando sapatos, comprados pelas "madames" nas casas famosas do centro da cidade, como Lojas Brasília, Lojas Clark, Lojas Fidalga e outras mais, as quais já não me lembro… Mas isso só na parte da tarde (das 13 as 18h), visto que na parte da manhã estava no curso primário, agora já no G.E. Buenos Aires, na Avenida Cruzeiro do Sul, sob a direção do sr. Peter.
E assim fomos vivendo…

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