Nasci em 1949, no bairro do Pacaembu, Rua Ferdinando Laboriau, 93. Passei minha infância andando de bicicleta e jogando bola nas ruas do bairro que, naquela época, eram desertas, algumas ainda de terra. Quem desce e descia minha rua e subia a Zequinha de Abreu, ia dar na Rua Cardoso de Almeida que, seguindo reto à direita, terminava lá embaixo, no Largo Padre Péricles. Nesse tempo, dava para descer a Cardoso de bonde. Se não me engano, ele seguia depois rumo ao centro da cidade pela Avenida General Olímpio da Silveira, que logo adiante virava Avenida São João. Nesse tempo, todas as ruas à esquerda da Cardoso de Almeida, como a João Arruda, que ficava a uns quatro quarteirões da minha casa, e as ruas Vanderlei, Caiubi, Bartira, João Ramalho entre outras, iam dar num baita terreno desocupado ocupando o fundo do vale. No meio do matagal, ficava a favela do Buraco Quente. Na parte mais baixa do terreno, havia um córrego. Hoje, por ali, passa a Avenida Sumaré. Minha irmã pertencia a um grupo de jovens católicos, o Graal, com sede na Cardoso de Almeida. Esse pessoal, junto com os padres dominicanos – a igreja São Domingos ficava pertinho, na Rua Caiubi – costumava ajudar os favelados. Assisti minha irmã e seus colegas, junto com os moradores da favela, construírem com as próprias mãos uma capela de madeira na beira de um barranco, na Rua João Arruda antes da descida. Brinquei muitas vezes na favela Buraco Quente e fiz amizade com alguns moleques que moravam lá. Descobri que os caras sabiam fazer pipas muito melhor do que eu. Fizemos um trato. Eu fornecia o material, papel, linha, cola e varetas e eles, em contrapartida, ajudavam a fazer meus papagaios. Até hoje, quando passo pela Avenida Sumaré, lembro de meus amigos e eu sentados no alto de um tremendo barranco, mais ou menos onde hoje é a Rua Ministro Gastão Mesquita, soltando pipa e espiando o sol se por.
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