Viagem do Olhar – Parque da Água Branca

Certa manhã vi um gato, de olhar guloso, armar ataque contra um pavão e recuar diante de tantas penas coloridas. Era manhã de inverno e tudo se passava junto a uma fonte de água cristalina, numa região densamente povoada da cidade de São Paulo. Alucinação, disseram os amigos quando lhes contei. Não era.
Há algum tempo, na biografia de um brasileiro que teve seu passaporte apreendido por conta de um processo inexplicável dos anos de chumbo, li uma daquelas verdades que, quando compreendidas, nos marcam para sempre. Homem acostumado a correr mundo, falava da decepção de não poder viajar, talvez nunca mais. Contava como isso o deprimira, como seu mundo ficara menor. Até que resolveu dar uma volta no antigo bairro em que morava, no Rio.
Deixando-se perder entre as alamedas, entrando em ruas pelas quais nunca passara ou, ainda, olhando mais detidamente o seu caminho habitual, enxergou detalhes que nunca vira antes. Entrara, por assim dizer, em um “modo de viagem”, com um olhar que lhe permitia surpreender-se com pequenos detalhes, iluminar-se com a banalidade da vizinhança. Isso não dependia de visto ou carimbo algum. Ele usava uma espécie de passaporte interno que ninguém poderia lhe tirar. Sua viagem estava no olhar.
Sempre penso nisso quando me permito vagar por caminhos, conhecidos ou não, nas andanças matinais perto da minha casa, ou em viagens, ao redor dos lugares em que fico hospedado. E me pergunto, afinal, como funciona esse “modo de viagem”, como é que se liga esse passaporte interno.
Amo viajar. De coração. De preferência, para onde nunca tenha ido. Mas, com esse passaporte interno, muitas vezes experimento como novidade alguns lugares que conheço desde criancinha. Não sei exatamente como funciona, mas acho que tem algo a ver com entusiasmo, uma espécie de inspiração, um contentamento puro e simples por estar ali andando, e não pensando em mais nada. Atenção na respiração, sem pensar no passado, sem preocupação com o futuro.
Anos atrás, quando comecei a caminhar por recomendação médica, carregava um radinho com a falsa urgência do noticiário e o estresse do qual deveria me apartar. Demorei até perceber que caminhar em “modo de viagem” exige um desligar-se de si mesmo, aquele relaxamento que nos permite encontrar algo justamente porque não o estamos buscando. Percebi que somente quando dissolvia o ego no ambiente via aquilo que não sabia estar buscando.
Numa bela manhã, vi o olhar guloso de um gato, pronto para saltar em um pavão. Onde seria possível presenciar uma cena dessas na cidade de São Paulo? Se estivesse procurando muito, em lugar nenhum. Se estivesse fazendo força para ver isso ou aquilo, creio que nunca veria gato, pavão, tartaruga, o que fosse. Mas, em “modo de viagem”, com os vistos do passaporte interno em dia, vi tudo isso no Parque da Água Branca. Nunca mais me esqueci de que, antes mesmo da reserva de hotel ou da passagem aérea, a viagem começa no olhar.

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