Os Córregos de São Paulo 1

Lembro que, lá pelo final dos anos 70 ou começo dos 80, minha mãe ia comprar sapatos na Roselid.
Como toda mulher, ela adorava sapatos, mas havia poucas lojas na cidade, e talvez nenhuma com a variedade que tinha aquela loja.
A loja ficava no fim da Rua Guaraiúva, no Brooklin. Ficava numa casa grande (para os padrões de uma criança) e os sapatos ficavam separados em salas por cor, pelos dois andares da casa, empilhados no chão mesmo. Era uma bagunça muito sedutora… já naquela época se pregava o "fique à vontade" que encontramos hoje.
Mas o interessante mesmo era a tal da Rua Guaraiúva. Da loja em diante, a rua era praticamente de terra, e acabava a poucos metros dali num matagal de terreno baldio onde só tinha mamona. Ali era uma terra de ninguém com um córrego no meio que depois veio a ser a Av. Água Espraiada (atual Jorn. Roberto Marinho)…
Minha mãe não deixava eu ir muito perto daquele arrabalde porque era muito ermo. E ainda tinha a favela mais adiante. Era muito "fim de mundo". E eu nem sabia o que mais me seduzia, se eram os sapatos ou a vassidão do terreno baldio e a possibilidade de guerra de mamona…