Estávamos todos os garotos ali na calçada sentados, uns olhando para os outros, sem ter o que fazer. Jogando conversa fora, deixando o tempo passar. Tudo estava muito monótono. Precisávamos inventar alguma coisa. Quando alguém de repente chegou trazendo uma caixinha de papelão.
Todos voltamos as atenções para aquela caixinha. Parecia uma caixa mágica. Me lembro bem, era um time de futebol de botão do Palmeiras. Era do Domênico, neto do seu Giuseppe. Só podia ser do Palestra.
A novidade passou de mão em mão. Olhamos todos com muita curiosidade aquilo. Passávamos os dedos naqueles botões como que querendo decifrar algum código novo. Eram de plástico verde até meio rústico, tendo ao centro um papel colado com a fotografia tosca do jogador em branco e preto, seu respectivo número no time e seu nome, além, evidentemente, do emblema do clube. Havia ainda na caixinha duas palhetas redondas, que serviam para tocar os botões, uma trave branca com a redinha toda em plástico vazado, duas bolinhas redondas achatadas como pequenos discos e o goleiro que parecia um escudo, também com a sua foto, com um arame atrás para manipulá-lo. Era o primeiro time que aparecia na nossa rua.
Digamos que o Domênico foi o Charles Miller do futebol de botão do pedaço. Ele introduziu o esporte que viria encantar as crianças por aquelas bandas nos próximos quatro ou cinco verões e invernos também, períodos das férias escolares.
Como bom introdutor do esporte, Domênico passou a explicar para todos as regras fundamentais. Para a prática do jogo bastava uma superfície lisa onde delimitávamos as linhas de um campo de futebol. Linhas de fundo, centro do campo, as áreas pequenas e grandes, marcas dos pênaltis e a linha divisória do gramado com a circunferência ao centro. Podia ser qualquer superfície desde que bem lisa. Assim ocupávamos mesas de sala de jantar, escrivaninhas maiores, etc, para angústia de nossas mães.
As regras eram muito fáceis para nós todos que gostávamos de futebol. Seria algo como dirigir um time em campo. Seríamos o técnico do time. Armaríamos a equipe a nosso gosto. Escalaríamos os jogadores que quiséssemos, sem a interferência de nenhum cartola. Coisa fantástica, poder mandar no seu próprio time!
Me lembro, todos nós fomos comprar uma daquelas caixinhas que eram vendidas nas lojas de brinquedos. Lá perto de casa era o Bazar 13 na Teodoro Sampaio. Tinha todos os clubes grandes da Capital e alguns do interior que se destacavam no Campeonato Paulista. Ferroviária de Araraquara, Ponte Preta, São Bento de Sorocaba, Botafogo de Ribeirão e o Comercial, também.
Cheguei em casa com a minha caixinha do São Paulo pronto para disputar uma partida com algum desafiante. Seria a partida amistosa inaugural do meu time. Esse primeiro jogo, apesar de amistoso, foi um grande clássico. O meu São Paulo contra o Corinthians do Paulinho. Não lembro bem do resultado, pois sei que perdi, e nesse caso fiz questão de esquecer mesmo. O Paulinho tinha o seu time há mais tempo e já tinha feito uma pré-temporada de muita preparação tática e física na casa de um tio no interior.
Praticamente todos os garotos tinham seu time de futebol. E na rua havia time de todos os clubes, às vezes até dois ou três garotos com o mesmo clube. Do São Paulo tínhamos eu e o Emílio. Assim, quando jogávamos nós dois, ou eu ou ele tinha que pedir algum outro time emprestado para outro garoto. Para evitar essa situação acabei comprando um segundo conjunto de botões. E optei pelo time da Portuguesa para agradar o meu patrocinador, o meu pai.
Com o tempo, fomos nos aperfeiçoando na técnica do botão. E com o aperfeiçoamento, as exigências passaram a ser outras. Vieram novos investimentos, mais sofisticação. O time de plástico rústico comprado nas lojas de brinquedos não nos satisfazia mais. Aquilo tinha virado coisa séria, uma febre.
Na troca constante de informações com olheiros de outros clubes de outras ruas, alguém descobriu que aquelas capinhas (lentes) de mostradores de relógio serviam excelentemente para a prática do esporte. Eram de acetato e a sua convexidade dava um efeito todo especial nas bolinhas. Estas também sofreram modificações. Não eram mais chatas. Passamos a usar bolinhas esféricas de feltro, que requeriam um domínio maior da técnica do jogo, tanto nos passes como nos chutes ao gol.
Os novos jogadores-lentes de relógios passaram então a predominar nos "gramados". No começo comprávamos as lentes usadas e baratas das relojoarias que prestavam conserto. Assim, acabava havendo times com jogadores-lentes de todos tamanhos, desde os pequenos de relógios femininos até os maiores de relógios de bolso. E cada "biotipo" era adaptado para uma determinada função no campo. Os grandões ficavam na defesa e os menores mais ágeis iam para o ataque. Havia ainda os especialistas batedores de falta. Eram botões-capinhas com um chanfrado todo especial que pegava bem por baixo na bola, dando-lhe um efeito especial superando as defesas adversárias na direção do ângulo da trave, longe do alcance do goleiro. Era certeza de gol. E treinávamos essas jogadas exaustivamente. Tínhamos que conhecer milimetricamente a força empregada no pulso, a inclinação na palheta e o comportamento do jogador-botão.
À medida que fomos nos desenvolvendo no esporte, as lentes usadas, apesar de toda a variação técnica que ofereciam, deixaram de ser atraentes pelo seu aspecto. Começamos a cuidar melhor do visual dos times. E para isso passamos a comprar lentes novas, zero quilômetro, todas do mesmo tamanho, numa formatação (diâmetro e convexidade definidos e homogêneos) adequada às táticas empregadas no campo.
Íamos à Barão de Paranapiacaba para comprar nossos "jogadores". Houve uma uniformização dos botões. Todas as capinhas recebiam o emblema e o respectivo número do jogador. Tanto os números como os emblemas eram decalques vendidas em cartelas nas papelarias, em quantidade suficiente para um time completo com reservas. Todas boas papelarias tinham uma extensa variedade de emblemas. Por fim, eram pintadas com as cores dos clubes, em tinta laca, comprada em casa de aeromodelismo.
Confeccionar os times era um prazer à parte. Alguns garotos gostavam mais até de montar as equipes do que propriamente disputar as partidas. E se davam tão bem nessa atividade que acabavam aceitando encomendas de outros garotos. Se tornaram os empresários do futebol de botão. Lembro que havia até troca de times completos. Acho que a Lei do Passe, vigente hoje no futebol profissional, foi inspirada nessas barganhas.
Se os jogadores passaram por uma grande evolução física, os goleiros também acompanharam. Não eram mais aqueles raquíticos escudos com manopla de arame. Passaram a ser verdadeiros blocos de madeira feitos em casa. Havia também os mais sofisticados de resina plástica comprados em lojas especializadas. Eu preferia os de madeira. Além de mais baratos, davam maior prazer em moldá-los, pintá-los com a mesma tinta laca e de condicioná-los a nossa maneira. Mas havia um pulo do gato, que não vou contar agora.
Para acompanhar todo esse progresso com os times, os "gramados" também tiveram que ser modernizados. As mesas de jantar e as escrivaninhas não mais satisfaziam a evolução técnica dos jogadores. Passamos a construir os nossos próprios estádios. Cada time ou cada menino jogador tinha o seu. Comprávamos pranchões de madeira compensada para a confecção dos campos. Depois de um tempo, descobrimos que havia um compensado da "Eucatex", bem mais leve, mais liso e mais barato, muito mais adequado ao nosso jogo e aos nossos bolsos. Acho que o Maluf, ou a família dele, ganhou muito dinheiro na Eucatex com esse produto. Parece até que tinham lançado essas placas para o mercado dos jogadores de futebol de botão.
Como essas placas tinham tamanho padronizado, o tamanho delas passou a ser a dimensão oficial dos campos. Alguns garotos pintavam a placa com a cor verde, imitando grama, e até enfeitavam as laterais com bandeirolas, principalmente nos cantos dos escanteios. Eu não aderi à moda, pois a placa "in natura", na cor marrom, era muito mais lisa, muito mais deslizante para os botões ganharem velocidade. Assim quando nosso time jogava em campo adversário tínhamos que levar em conta as condições do "gramado". Representava uma variável a mais a ser ponderada.
E de tantos jogos e jogadores acabamos organizando vários campeonatos. De pontos corridos, todos jogando contra todos. Com turno e returno, quem somava mais pontos era o campeão. Ou com quartas de finais e semi-finais, onde sobrava um grande finalista, campeoníssimo. Acho que a CBF copiou da gente as fórmulas de disputa, e até hoje não sabe qual é a melhor.
Assim, passamos quatro ou cinco temporadas (campeonatos de verão e de inverno) até que surgiram os fliperamas. Mas aí é uma outra história…
Ah, ia me esquecendo. Lembra do pulo do gato que falei quatro parágrafos acima. Pois é! Como eu fazia o meu goleiro, pedia na serraria para cortar a madeira um milímetro a mais em relação às medidas oficiais. Ficava imperceptivelmente maior. Maior a ponto de me garantir defesas importantes em algumas partidas, me levando a três títulos de campeão.
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