Há anos não vou à festa de Acheropita. Pura falta de oportunidade. Vivo há 21 anos fora da minha doce São Paulo, que nunca me saiu do coração. Mas que saudade, que coisa saudável a lembrança e a idéia de união que aquela festa provoca!
Mas a festa de Acheropita, lá no Bixiga, representa uma das expressões mais belas do ser italiano em São Paulo. A Igreja, no canto, quieta, olhando os festeiros, esperando visitas, na sua imensa serenidade, branca, parecendo sorrir de braços abertos para os descendentes daqueles que vieram fazer a América em meio a fome, incertezas e muito, muito sofrimento.
Eu me lembro, há anos, de uma minissérie na televisão em que, dentro daquela igreja, Lélia Abramo chorava dizendo que até, se necessário fosse, deixaria a família em São Paulo e voltaria para a Itália. Era impossível viver fora daquele país. Era emocionante a fala, o olhar, a expressão de saudade da Lélia, com aquela italianidade de quem muito sofreu…
E a festa lembra todo o cheiro de família, de abraços, risos e a união que a comida representa. Aquele macarrão, a pizza, a cepolla. Uma vez eu e o meu companheiro de vida inteira, o meu Nelson, entramos na fila da fogazza. Era uma fila imensa. Eu queria levar uma bandeja de fogazza para a minha avó, descendente direta de calabreses. Da rua víamos as mulheres fazendo a iguaria em mesas imensas, de dentro de uma garagem. Todas felizes, sorridentes, gordinhas, amassando o pão.
Na rua, num pequeno palco, um senhor – já de idade – de terno e gravata borboleta, cantava emocionado, com voz vibrante, com a Itália toda no peito, ao som do violino, o maravilhoso Funiculi Funiculà.
Eu não me lembro de ter visto um sorriso mais brilhante do que o daquele senhor. Era uma história inteira contida no olhar, a esbanjar otimismo, o sentimento de vitória, de amar a vida do jeito que foi, a alegria da sobrevivência resolvida a duras penas na eterna São Paulo, com a bênção da Acheropita.
e-mail da autora: [email protected]