Lalá, o boêmio da Liberdade

Anos 80 e 90 do século passado, bairro da Liberdade, confluência das ruas São Joaquim, Glória e Conselheiro Furtado; ou São Joaquim com a Galvão Bueno; ou adjacências. Um personagem entre tantos. Perfil: moreno, setenta e poucos anos, simpático, olhos rasgados como os dos orientais do bairro. Não, não era japonês "nihonjin", não era um ojissán (tio) – não foram poucas as vezes que o confundiram e o cumprimentaram com o tradicional “Ohayoo Gozaimasu”. Eram traços da herança indígena. Laureano Cordovil Pinto vinha da Amazônia Paraense. Morria de saudades de Belém.
Era um boa-praça e contador de estórias nato. Chamava a atenção com causos e anedotas de atraíam para si todas as atenções. E era um boêmio inveterado, amante da bebida, da boa mesa, da noite, e um galanteador que impressionava mulheres que muitas vezes tinham idade para serem suas netas.
Fazia ponto no saudoso bar Capitólio (esquina da S. Joaquim com a Glória), pertencente aos irmãos portugueses da Ilha da Madeira Seu Zé, Seu Agostinho e Seu Cristóvão.
Foi por ocasião do seu óbito, e em sua homenagem, que escrevi a seguinte crônica:

Lalá

São Paulo 22 de fevereiro de 2003

Para o boêmio, exímio pé-de-valsa e amigo fiel Laureano Cordovil Pinto (in memorian)

O homem velho acendeu mais um cigarro, deu uma longa tragada, e sorriu: um sorriso triste de índio, carregado de rugas e desânimo.
"Comecei faz muito tempo, sabe?" – confessou.
"Era menino ainda. Parar, agora… sei não."
O bigode grisalho, assim como os dedos médio e indicador da mão que me estendia o envelope branco com o logotipo do Hospital do Câncer, estavam amarelados de nicotina. Imaginei como deveriam estar seus pulmões.
"Veja a radiografia" – leu meus pensamentos.
A grande mancha indicava o comprometimento total do pulmão esquerdo.
"É, parece sério" – eu disse. E era. O enfisema o mataria meses depois, sem piedade.
Tivera tempo de voltar pela última vez a Belém e assistir ao Círio de Nazaré. Canto do cisne. Podia sentir a corda rebentando dentro do peito.
No Val de Cãs — depois da chuva da tarde, regressou a São Paulo. Para sempre. Esqueceu no embarque a bandeira do seu Tuna Luso.
Depois Lalá lamentaria profundamente: "com que cobrirão meu caixão?"

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